Blog da Manu

Relato da prova - também no Webrun

Muito difícil começar a escrever sobre essa prova. Acho que na verdade é porque não sei por onde começar, já que tantas coisas aconteceram. Tudo foi novidade. Tenho na minha cabeça um misto de imagens e de sentimentos que são difíceis de expressar. Fico arrepiada só de pensar e às vezes imagino que foi tudo um sonho.
Pensei nos elementos como uma pintura. Digo pintura porque foi uma junção de coisas que definem a perfeição. Seu eu pudesse imaginar, se eu pudesse pedir, não teria capacidade para pedir tão bem. Parece que tudo aconteceu como um passe de mágica.
O dia amanheceu lindo e esperávamos o cenário perfeito. A largada do STY aconteceu do outro lado do Monte Fuji e fomos para lá com o ônibus da organização. Chegamos três horas antes da largada e o cenário mudou completamente. Nuvens negras começaram a se aproximar, trazidas pelo vento forte e gelado. A previsão mudou para chuva no fim do dia e confesso que fiquei bastante preocupada porque a temperatura fica muito baixa de noite, principalmente na montanha.
Eu estava com o Marcelo Sinoca e nós estávamos super tranquilos. Não estávamos nervosos e curtíamos muito a oportunidade de estar ali. A equipe Goldwin TNF nos dava um grande suporte o tempo todo. Consegui uma equipe de apoio e preparei minha suplementação para toda a corrida em função disso. Dessa forma não perderia tempo nas áreas de apoio.
Depois da cerimônia de abertura alinhamos na primeira fila para encarar os 85km em volta dessa montanha maravilhosa. Com a perfeição que os japoneses fazem com maestria, foi dada a largada, em meio a uma grande quantidade de espectadores. Pelo fato de estar na frente consegui começar muito bem, concentrada e motivada para correr. Eu sabia que seria incrível, mas não tinha idéia de que seria tanto. Eu estava extremamente feliz.
Eu chamei de pintura justamente pela perfeição com que tudo aconteceu. O mesmo vento forte que trouxe as nuvens as levou embora. O Monte Fuji deu sua cara e fez questão de exibir sua beleza, de todas as formas. Às vezes ele estava na nossa frente, às vezes de lado, mas ele estava sempre ali, lindo. A luza mudava e ele ficava cada vez mais impressionante. Pegamos uma subida bastante longa no começo e chegamos a cota de 1800m, na base do vulcão, misturados naquele cenário de neve, areia vulcânica preta e aquele incrível céu azul.
A descida foi maravilhosa. Quando corremos nesse tipo de terreno é possível acelerar numa trecho bastante íngrime, tornando tudo ainda mais divertido. A mídia estava presente durante diversas partes do percurso, com câmeras ao vivo e fotógrafos posicionados em pontos estratégicos.
Cheguei ao primeiro ponto de apoio e lá estava o Gakuto, com minha caramanhola nova. Foi o tempo de trocar e seguir. Estávamos no meio de uma longa descida. Comecei a entrar num trecho de trilhas e estava sozinha. Eu admirava a beleza em minha volta e curtia o terreno no qual corrida. Dessa forma cheguei ao A7, marca dos 30 quilômetros de prova, o que pareceu acontecer num piscar de olhos. Eu vinha bem e toda vez que chegava numa área de transição era bastante motivada por todos que me observavam. Minha equipe de apoio estava sempre lá então era sempre muito fácil pegar meus suplementos e sair.
Dali para frente a prova começou a ficar mais dura. Saí junto com o Igor, corredor da Venezuela, e comentávamos como havia passado rápido. Foi então que chegamos ao pé de uma grande subida. Ela fazia um zig-zag para cima da montanha, íngreme e em terreno muito macio. Passamos um corredor e seguimos juntos, mas quando notei ele havia ficado para trás. Segui firme e confiante, pois o percurso estava marcado com perfeição. O cenário começava a ficar cada vez mais impressionante. As vegetação muito típica da região e o Monte Fuji exuberante enquanto a luz mudava do amarelo para o laranja e para o rosa. Eu corria feliz.
Lembro de um certo momento com muita clareza. Cheguei ao cume de uma montanha onde não havia vegetação nenhuma. O Fuji estava ao meu lado, com o lago lá embaixo. Virei para a direita, dando as costas ao vulcão e entrando na trilha de novo. Abri os braços, sorri e agradeci. Um fotógrafo registrou esse momento. Foi um pequeno momento mágico que, apesar de ter sido rápido, consigo congela-lo perfeitamente em minha mente e eterniza-lo.
Quando cheguei no A8 fui muito aplaudida pois havia ganhado algumas posições na colocação geral e vinha entre os primeiros de toda prova. O Naoki e o Gakuto saíram para a entrada do Jacob e Takero, que seguiram fazendo meu apoio até o final. Já estava quase totalmente escuro e peguei a minha lanterna de cabeça antes de sair. A subida seguinte foi muito violenta. Ela era bastante íngrime e técnica.
Apesar da temperatura ter caído eu não sentia frio. A felicidade e motivação cura qualquer desconforto e ajuda a mente a seguir focada. Esse é meu princípio, meu remédio. Tenho muito amor pelo que faço e isso é o meu combustível, meu pilar. O staff ao longo do percurso ficava surpreso quando percebia que era uma mulher que vinha na trilha. Eu não entendia o que falavam, mas via a surpresa na expressão deles. Eu sabia que estava fazendo uma boa corrida.
O A9 chegou muito rápido, mas ali não havia apoio pessoal, apesar de ser uma área de abastecimento da prova. Peguei um paozinho e saí com mais dois corredores que havia conseguido alcançar. Ali sim veio a subida mais difícil da prova. Ela era simplesmente vertical. A noite estava linda e a lua cheia brilhava no céu. Eu encarava uma “escalaminhada” por pedras, com cordas que auxiliavam a levantar o corpo. Eu olhava para cima e via uma luz de sinalização do percurso. Quando eu passava essa luz, olhava para cima de novo e via outra muito mais acima. Foi uma subida impressionante. Pensei no Max, que estava encarando o percurso de 160k e que chegaria ali com uma quilometragem considerável nas pernas.
A descida desse trecho foi bastante longa e divertida. Eu estava com um problema nos olhos e começava a enxergar um pouco embaçado. Isso me fez torcer o tornozelo com força e confesso que doeu muito. Caminhei um pouco para que a dor forte passasse e aos poucos fui voltando a trotar, depois correr. Desse momento em diante tive que me concentrar com muita força. Eu não podia torcer de novo de forma alguma então tinha que correr com muita atenção, escolhendo da melhor forma possível os lugares onde ia pisar. Minha visão piorava gradualmente e isso me preocupava.
Cheguei ao A10 e encontrei o Jacob pela última vez. Dali em diante eu teria a última subida e descida, somando um trecho de 20km. Comi um pouco de noodles, abasteci minha mochila e saí. Eu liderava a prova mas não sabia quanto tempo a segunda colocada estava atrás de mim, por isso fazia tudo sem perder tempo.
Comecei essa subida sozinha. Eu ocupava a 11 colocação geral da prova e estava muito satisfeita com o resultado, mas sabia que ainda tinha um trecho considerável pela frente. Mantive o foco e procurei me alimentar e me hidratar bem, sempre admirando a beleza do lugar. A minha visão havia piorado e tive muita sorte com o fato desse último setor não ser muito técnico. Eu estava tendo que administrar coisas difíceis, mas em momento nenhum deixei a bola baixar e nada disso tirar minha concentração. Se em algum momento eu pensasse em algo ruim, automaticamente mudava meu foco para algo positivo. Quando fica difícil para o corpo temos que recorrer à mente e foi isso que fiz. Seguia feliz o tempo todo.
Ao final da descida cheguei num templo japonês, com árvores enormes. Foi um presente passar por ali e isso me fez perceber mais uma vez que estava muito longe de casa, mais precisamente do outro lado do mundo.
Entrei numa pequena via em volta do lago que eu já sabia que era próximo da chegada. Eu olhava para a direita e via fortes luzes que eu imaginava serem do arco de chegada. Eu estava chegando no fim.
Nesse momento vem uma enchurrada de sentimentos. Vem o alívio de estar acabando e vem a tristeza de estar acabando. Lutei tanto para estar ali que eu não sabia se estava triste ou feliz por estar chegando ao fim. Eu tinha dentro de mim um sentimento de euforia incrível e de dever cumprido. Tinha sido tudo tão bom que eu não sabia se tinha sido verdade ou não. Cruzar a linha de chegada em primeiro lugar então só completou esse sentimento maravilhoso. Fui recebida pelo Kaburaki, que me felicitou a vitória, e depois pelo querido companheiro de equipe, Marcelo Sinoca, que havia sido o sétimo corredor geral, assim como toda equipe da Goldwin TNF que nos apoiou. Foi simplesmente fantástico e festejamos bastante.
Gostaria de agradecer todos que me acompanharam e que tornaram isso possível. Hoje posso afirmar que cresci e aprendi muito ao longo do processo de treinamento, assim como na prova em si. Foi uma viagem inesquecível que guardarei com muito carinho no meu coração.

6 comentários para “Relato da prova - também no Webrun

  1. Parabéns Manu, emocionante seu relato sobre a prova. Não sei qual Manu é melhor , a que corre ou a que escreve.
    Abs
    Ivan (circuito São Conrado)

  2. Valeu Manu!
    Mais uma vez parabéns! Muito bom o relato, consegui visualizar um pouco da emoção que passou, depois mostra a foto que vc comentou.
    Arrasou! Bjs, Miguel

  3. Manu, eu adorei a sua pintura e esse foi realmente um quadro perfeito! Só quem te acompanha sabe o quanto é dura a sua rotina de treinos… seguidos de forma religiosa.
    Um super parabéns não só pela atleta que você é, mas também pela qualidade de ser humano que você busca.
    Um grande abraço do seu fã!

    • Oi Alessandro!

      Super obrigada pela mensagem. Essa vitória não é minha, e sim de toda equipe que me acompanha. Sem a ajuda de vocês nada disso é possível. Obrigada pela energia que você deposita nesse trabalho para que tudo dê certo. Obrigada pela amizade.

      Grande abraço!

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