Blog da Manu

Cotopaxi

O sonho de subir o Cotopaxi começou quando cheguei no Equador. Engraçado falar isso, porque esse é o tipo de coisa que planejamos com antecedência, mas que no meu caso planejei no curto prazo de uma semana.

Cheguei em Quito sozinha (e imaginava que ficaria sozinha até a véspera da prova), até receber uma mensagem do amigo Mauri Pagliacci, dizendo que o Gustavo Reyes também se encontrava em Quito. Trocamos mensagens e vimos que havíamos chegado no mesmo dia e estávamos no mesmo hotel, então combinamos de jantar.

Conversa vai e vem, e surge o assunto “alta montanha”. Contei da minha experiência em Janeiro no Aconcagua e que não havia chegado ao cume por mau tempo. Foi aí que percebemos que temos muito em comum no que se diz respeito ao contato com a natureza, montanhas e expedições. Com isso surgiu a palavra Cotopaxi, que também conversando com meu amigo Gabo Montero, equatoriano, nos deu força para ir. O problema é que eles queriam ir na terça feira, antes da prova, e eu sofria com uma gripe forte toda a semana. A idéia de subir o maior vulcão ativo do mundo de tornou distante para mim.

Cheguei no hotel e comecei a pensar de que forma eu poderia arrumar uma possibilidade de subir. Olhei o horário do meu voo de volta. Segunda feira à noite. A prova era sábado. Concluí que eu tinha a alternativa de subir no domingo e imediatamente comuniquei ao Gustavo e  Gabo. Entramos em contato com um guia e ele nos disse que estava livre. Tudo estava se encaixando.

Na sexta feira pela manhã saímos para alugar equipamentos. Apesar de eu já ter tudo, não levei nada para o Equador pois jamais havia pensado na possibilidade de subir uma alta montanha. Peguei as botas e capacete do Gabo emprestadas, aluguei polainas, crampons, piolet, bouldrier, luvas, calça etc. Quando chegamos de volta ao hotel com a sacola cheia de equipamentos eu pensei, “nós vamos mesmo fazer isso.”

Eu ainda não estava curada da gripe e isso me preocupava por dois motivos. O primeiro é que eu tinha medo de fisicamente não ter forças para subir, e com isso atrapalhar o Gustavo e Gabo que queriam também chegar ao cume. O segundo era o medo de não completar a prova. Se eu não completasse os 80km no sábado, não me sentiria bem em dizer que iria ao Cotopaxi no domingo. Acho que nem preciso explicar muito, mas certamente o Cotopaxi foi meu pilar no Endurance Challenge. Consegui concluir a prova e com isso me senti autorizada a tentar o cume no domingo. Esse foi o meu maior presente: a chance de tentar.

Domingo acordei mais cedo que o normal, já mais recuperada da prova após um delicioso jantar no sábado. Usamos a manhã para visitar uma feira de produtos típicos equatorianos bem em frente ao nosso hotel. Eu provava de tudo e tinha vontade de trazer tudo para casa (especialmente uma cachaça de gengibre que experimentei!). Voltamos ao hotel, fizemos checkout e às 13:00 nosso amigo Gabo estava na porta nos esperando. Nossa missão estava começando.

Paramos para comprar algumas comidas para levar na mochila, almoçamos e seguimos em direção ao Parque. Entramos antes das 17:00, horário limite, deixamos nossas coisas na cabana e subimos até o lago. O lugar era impressionante. Foi o momento onde pude ver melhor o vulcão, com poucas nuvens no topo. Eu olhava para cima e tentava “apalpar” aquele momento, concretizando de que realmente estava lá, mas ainda parecia um sonho. O vento gelado soprava forte e enquanto caminhamos em volta do lago, o tempo virou novamente. O vulcão desapareceu como uma passe de mágica e uma chuva fina começou a cair. Entramos no carro e voltamos ao acampamento para jantar às 17:00.

Nos serviram muita comida. Uma delícia, porque era comida típica equatoriana. Milho, abacate, sopa de batata e depois de tudo isso um prato de arroz com frango que eu nem aguentei comer inteiro. Eu sabia que tudo aquilo seria essencial para gerar força na minha subida e eu buscava comer o máximo possível. Também sabia que na altitude mais elevada eu teria dificuldade para ingerir qualquer coisa, incluindo as comidinhas gostosas que compramos em Quito. Na montanha as sensações mudam, e muito.

Terminado o jantar fomos para a cabana. Não havia luz elétrica, banheiro, quase nada. Era apenas uma estrutura fechada onde poderíamos descansar abrigados do frio. Para a nossa sorte o Gabo nos levou sacos de dormir e com isso podemos deitar mais acomodados.

O Cotopaxi é um vulcão que se sobe à noite. Isso porque existe um glacial gigantesco por onde transitamos e que com o calor do sol começa a derreter e se torna perigoso. De noite o gelo fica mais compacto, que facilita a nossa subida e nos dá mais segurança. Concordamos em começar nossa subida 00:30 para que chegássemos ao cume no amanhecer. Se chegássemos antes, não veríamos nada.

Eu consegui dormir e descansar algumas horas, mas o Gabo e o Gustavo ficaram conversando porque não tinham sono. Eu não estava nervosa nem agitada. Eu estava muito tranquila, mas acredito que essa tranquilidade se devia ao fato de que eu ainda não acreditava no que estava acontecendo. Era como se eu estivesse anestesiada.

Por volta das 23:00 começamos a nos movimentar para sair. Nos vestimos, já com as botas e polainas, e descemos para tomar um café quente e comer uns biscoitos. Havia uma neblina muito densa e eu mal consegui ver o caminho na minha frente. Fazia frio, mas ali não ventava muito.

Depois de comer e de estarmos 100% prontos, entramos no carro rumo à base do vulcão. Ao sair só se via branco. Estávamos dentro de uma nuvem. Aos poucos ela foi se desfazendo e quando abri a janela consegui ver o céu estrelado. Um sonho começava a se concretizar.

Os ânimos estavam ótimos. Nós cantávamos e nos olhávamos com cara de felicidade. Eu olhava meu GPS e notava o ganho de altura, até chegarmos ao estacionamento, ponto de partida da nossa caminhada.

Ali sim ventava. O ruido era alto, apesar do céu limpo. Estava muito escuro e era impossível ter a real dimensão da montanha que nos esperava. Eu tentava visualizar o seu contorno mas estava muito escuro. Nos olhamos e começamos a caminhar.

O começo era uma subida de terra, e eu observava os passos do nosso guia para entender o ritmo de subida. Em alta montanha tudo muda muito. É até perigoso irmos sem alguém que nos dite o ritmo, pois corremos sério risco de errar feio. Assim seguimos por mais ou menos uma hora até o ponto onde teríamos que colocar os crampons.

Sentamos, nos equipamos, e nos encordamos. O guia Francisco seguia na frente, comigo em segundo, Gustavo em terceiro e Gabo por último. A subida começava a ficar bem mais íngreme e eu mudava minha forma de andar, por conta das botas plásticas. Parece besteira, mas tudo isso cansa. Temos que mudar a forma de andar, com botas rígidas e crampons, usando o piolet como apoio. Fora isso, o ganho de altitude só aumentava o grau de dificuldade.

Chegamos a uma pequena caverna de gelo, onde fizemos nossa primeira pausa para comer. Eu estava com muita sede e tomava a Horchata, que o Gustavo tinha na sua mochila, e comia um mix de castanhas que havia levado. Eu não estava com fome, mas sabia que se o meu corpo aceitasse, eu tinha que comer. Nos levantamos e seguimos.

A subida continuava muito íngreme e conforme ganhávamos altitude, a dificuldade só aumentava. Eu queria ter uma idéia de onde estávamos na montanha, do quanto faltava, mas tinha medo de perguntar. Até o meu GPS eu tinha medo de olhar. Eu não queria que nada derrubasse o meu psicológico e nem transformasse numa dúvida se eu conseguiria chegar ao topo ou não. Eu seguia como um robô, um passo após o outro, subindo.

Lembro que num certo ponto não resisti e olhei para o meu GPS. Ele marcava 5,400m. Nós ainda tínhamos que subir aproximadamente 500m. Subir 500m no Rio de Janeiro significa uma coisa. Subir 500m no Cotopaxi, dos 5,400 aos 5,900 é outra coisa. Concluí que ainda faltava muito e eu já estava bem cansada. Foi aí que comecei a fazer pequenas pausas para respirar. Já havia muito menos oxigênio e eu notava isso com muita clareza.

Foi ficando cada vez mais difícil. Eu hiperventilava e começava a diminuir meu ritmo. Dava alguns passos e parava para respirar. Ainda estava escuro e o Gustavo me dizia que ainda tínhamos muito tempo para chegar ao topo, me garantindo de que eu iria conseguir. Eu tinha dificuldade, mas seguia subindo. Quando olhava para cima me arrependia. Via as luzes de um grupo de 4 pessoas adiante e realizava a subida que ainda precisava encarar. Eu não perguntava o quanto faltava, pois tinha medo da resposta. Eu respirava forte, fazia minhas pausas, e seguia.

De repente notei o céu um pouco mais claro. Consegui avistar o contorno da montanha em cima de mim. Olhei para trás e consegui visualizar um mar de nuvens. O dia estava nascendo. Eu não sabia se a corcova que eu via era o cume ou se era apenas mais uma subida antes de encarar outra, mas eu não queria perguntar. Começamos a subir por uma canaleta, onde o auxílio do piolet era imprescindível. Eu estava exausta e conforme tentava subir, despencava para trás. Eu hiperventilava e fazia toda força do mundo. Quando finalmente consegui superar aquele trecho, me esvaí no chão. Caí como um pano molhado, sentada, sem ar. Eu puxava e não vinha nada. Era como se eu tivesse asma. As lágrimas escorriam no meu rosto e eu olhava o Gabo e o Gustavo, que me davam um pouco de chá. Eu tentava rir com o fato de que não tinha ar, e repetia para que eles entendessem a minha sensação:
-No hay aire.
Foi aí que o Gabo olhou para mim, apontou para cima, e disse:
- Manu, la cumbre está allá, no más.

Eu olhei para cima e vi o quanto estava perto do topo. Me levantei e segui caminhando até ver a gigante bola laranja brotando debaixo das nuvens. Nós estávamos no cume do Cotopaxi. Me joguei de joelhos no chão, com os braços esticados, em saudação. Eu chorava como uma criança e só pensava em uma palavra: Gratidão.

Quando levantei o rosto, sentei no chão e olhei ao meu redor. Poucas vezes na vida eu havia visto uma coisa tão bonita e vivido algo tão intenso, em tão pouco tempo. Foi uma das melhores sensações da minha vida. Uma felicidade que não cabia dentro de mim e as minhas lágrimas eram de alegria. Em tantas provas que já fiz, tantas aventuras que já vivi, eu nunca havia chorado e me emocionado tanto quanto naquele momento. Eu abraçava o Gustavo e o Gabo em gratidão, pois eles haviam sido responsáveis por eu haver conseguido. Sem eles eu não teria chegado.

Eu olhava 360 graus ao meu redor e admirava cada detalhe. O crater no vulcão diante de mim, o glacial espesso em volta do crater, formando uma bóia branca. Um mar de nuvens a todo meu redor, que permitia apenas a passagem de outros cumes nevados. O sol, uma bola rosa e laranja no céu, banhando aquele cenário branco e trazendo calor àquele ambiente tão gélido e hostil à vida humana. Eu estava com meus dois pés em cima do maior vulcão ativo no mundo, a 5897 metros de altura, e com a felicidade inesgotável de quem havia conseguido chegar lá.

Agradeço do fundo do meu coração os meus amigos Gustavo Reyes e Gabriel Montero pelo companheirismo, amizade, e por acreditar que eu poderia chegar ao topo. Sem a ajuda de vocês eu não teria conseguido e serei sempre grata por terem me acompanhado nessa expedição. O meu muito obrigada a vocês.

Never Stop Exploring!

14 comentários para “Cotopaxi

  1. Manu,ler seu relato ou ouvir sua emocao no seu video foi muito intenso mas ao mesmo tempo gratificante! Fico muito feliz pelas suas conquistas e nao so porque torco por voce mas tambem porque nelas compreendo o significado das minhas. Admiro voce pela sua coragem ,mas especialmente ,por essa capacidade de transmitir a todos nos tanta emocao e alegria ao atingir suas conquistas. Muito lindo!

    • Amiga, fico muito feliz de poder compartilhar minhas aventuras com vocês. Se consigo passar emoção, melhor ainda! Assim vocês conseguem entender o por que de eu fazer tudo isso. Espero que isso seja um estímulo para que você também vá atrás dos seus sonhos. Dream big! Bjos

  2. Manu! Chorei! que emoção! Nossa… você sabe o quanto eu acho que você sempre consegue transmitir todos os seus sentimentos nos seus relatos, mas esse me impressionou! mais ainda por você ter completado (e BRILHANTEMENTE) uma prova duríssima no dia anterior… sem palavras! Que você continue se emocionando com cada conquista, com cada cume alcançado, compartilhando isso com todos nós, seus fãs e admiradores, porque isso nos motiva também a buscar os nossos sonhos, saiba disso! Super beijo!

    • Poxa, Ju, quem se emocionou fui eu. Muito obrigada pelo comentário. Pode ter certeza de que quando recebo o carinho de pessoas como você, fico mais motivada e faço questão de compartilhar. Os vídeos estão muito bons também. Vou tentar editar para mostrar a vocês. Grande beijo!

  3. Ufa! O sol nem nasceu ainda e estou acabando de ler seu relato, fico muito feliz por poder acompanhar esses momentos tão especiais. O mais interessante é o nível de intensidade física e mental que você coloca seu corpo, e eu como um estudioso e admirador do corpo humano em movimento percebo como você entrou em uma relação de equilíbrio. Parabéns pelo seu respeito, estudo e dedicação ao esporte e a natureza.

    • Obrigada, Alessandro! Acho legal como eu também tenho cada vez mais me interessado por entender o corpo humano. Impressionante como ele é mesmo uma máquina, que se nós tratarmos com carinho, nos responde com carinho. Fico feliz de poder me aventurar por tantos lugares, sempre podendo compartilhar minhas experiências com vcs.

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