Blog da Manu

Capítulo 2: Plaza de Mulas - 4300m

Retomando o capítulo anterior…

Voltamos caminhando num bom ritmo de trekking e em menos de 2 horas estávamos de volta a Confluência. Quando chegamos lá o Juna não estava. Depois de mais ou menos meia hora ele chegou. Ele havia se perdido e descido muito mais do que devia. Fazia calor, ele estava cansado, desidratado e até assustado. Essa foi a minha primeira lição na montanha.

Pablo, nosso guia chefe da expedição, comentou em voz alta, “Os aprendizados na montanha são muito duros.” Essa frase ficou ecoando na minha cabeça um tempão.

O dia seguinte era um dos mais mencionados na prévia da expedição: O trekking para Plaza de Mulas, acampamento base do Aconcagua. Nossa curiosidade era grande, pois todos falavam do base camp como um acampamento enorme, onde encontraríamos quase de tudo. Embora eu soubesse das facilidades como telefone via satélite e internet eu pretendia não usá-las, exceto para uma ligação, no dia antes de prosseguir para a parte mais alta da montanha.

Iniciamos cedo, pois o tempo estimado era de 8 horas. Antes de sair deixamos nossas duffel bags prontas com todo o equipamento que iríamos usar de Plaza de Mulas em diante e despachamos tudo nas mulas. Eu estava com a minha mochila de 35 litros, com água e comida. Como a água em Confluência não era muito boa, aproveitei o único córrego no início de Playa Ancha para encher todas as garrafas. Era importante beber no mínimo 3 litros nesse trekking.

Playa Ancha era um vale gigantesco, onde sua dimensão era facilmente perceptível. Quando eu avistava uma pessoa ou as mulas a distância, admirava o quanto aquele lugar era imponente. Era um vale “sem fim,” como um leve aclive que mais parecia ser tudo plano. Nós andávamos em fila, mas em certo momento tive que sair e andar paralelo ao grupo. Eu estava tão vidrada no chão e no pé da pessoa da frente, desviando de pedras, e sentia que estava perdendo o visual incrível. Ao sair tive a sensação de respirar mais fundo e fazer com que meus olhos alimentassem meu cérebro com aquele banquete da natureza.

Em 4 horas de caminhada chegamos a uma grande pedra, onde os trechos de subida iniciariam. Paramos ali para almoçar e fazia muito calor. Embora o sol intenso castigasse a pele, eu não suava pois o clima estava extremamente seco. Não havia uma sombra naquele lugar e eu agradecia o fato de estar usando roupas compridas tapando meus braços e pernas. Eu estava me sentindo muito bem e achava que a caminhada até aquele ponto tinha passado “voando”.

Depois do descanso retomamos o trekking. Com pouco tempo de subida já era possível avistar, muito à distância, o local do acampamento. Plaza de Mulas estava localizada a 4300m de altura, logo embaixo de um imenso glaciar. Embora ainda estivéssemos longe nós fomos preenchidos de euforia. Aquele seria meu recorde pessoal de altitude até o momento.

No caminho comecei a perceber alguns esqueletos espalhados pelo chão. Pertenciam às mulas, que provavelmente foram sacrificadas por terem quebrado as pernas. Meu coração ficou apertado e eu morri de pena daqueles bichos, pois eles nunca haviam escolhido estar ali. Me senti pior ainda por saber que estava usando o animal para carregar meus equipamentos para o acampamento base. Não conseguia parar de pensar numa alternativa para voltar sem ter que usar as mulas…

Depois de uma última subida mais íngreme avistamos de perto a biruta que indicava a entrada do acampamento. Nós havíamos chegado em Plaza de Mulas, após uma caminhada longa, porém tranquila. Armamos acampamento e nos estabelecemos no lugar onde iríamos passar a maior parte da expedição.

O acampamento base realmente tem MUITA coisa. O mais engraçado foi ver a galeria de arte mais alta do mundo, inclusive reconhecida pelo Guiness! Também avistei algumas tendas onde era possível tomar um banho. Até restaurante tinha ali em cima. O detalhe é que apesar de ter quase tudo, o preço de qualquer coisa era altíssimo, que eu entendo perfeitamente.

As expedições também tinham seus banheiros privados, mas o banheiro em Plaza de Mulas é melhor eu não comentar e nem mostrar (tenho fotos, mas vou poupar vocês disso).

O dia seguinte, terça feira, foi um dia de descanso. No início pensei em dar uma caminhada até o glaciar, apenas para me movimentar, mas fui abordada pelo Pablo, guia chefe da expedição. Ele me explicou que o dia de descanso era para ficar parado mesmo, e eu entendi na mesma hora. Eu prometi a ele e a mim mesma que não faria nada que eles não mandassem. Peguei meu livro e aproveitei para fazer o que não tenho muito tempo e paz para fazer na cidade: ler. Fazia sol e fiquei do lado de fora, sentada numa cadeira, com uma garrafa de suco ao meu lado. Às vezes eu tirava uma pausa para tomar um chá. Um capítulo acabava e eu iniciava outro em seguida, devorando o livro.

Na quarta feira fizemos nosso trekking para o Cerro Bonete, a 5050m de altitude, mais um recorde pessoal. Também era dia de estrear minhas botas triplas. Quando calcei as botas me senti um astronauta. Andar com aquilo era a coisa mais estranha do mundo. As botas triplas oferecem pouca mobilidade e é necessário das passadas de lado nos trechos mais íngremes. No começo me senti com a corda no pescoço, pois não conseguia imaginar como seria no ataque ao cume (especialmente na Canaleta), mas em pouco tempo ganhei intimidade e aprendi a andar. A subida foi dura, mas depois do trecho mais técnico de todos chegamos ao cume do Bonete. Foi uma comemoração muito bacana e todos nós nos abraçávamos. O dia estava lindo e ficamos sentados, admirando e lanchando. Mesmo estando bem mais alto que Plaza de Mulas, o Aconcagua ainda era um gigante.

Quando chegamos de volta em Plaza de Mulas o tempo começava a mudar. No início tivemos granizo e depois veio a neve. Nessa noite a temperatura caiu drasticamente, quando parou de nevar. Eu acho que essa foi uma das noites mais geladas de toda a expedição.

O dia seguinte amanheceu com um céu azul e o sol brilhando forte. Apesar da aparência agradável, todos nós saímos das barracas com nossos casacos de summit. A previsão de tempo começava mostrar uma constância de sol na manhã e neve à tarde. Rumores de mal tempo começavam a atormentar nossas cabeças e ficávamos especulando uma série de coisas. De vez em quando éramos abordados por algum guia, que nos dizia que ainda faltava muito.

Nesse dia carregamos as mochilas com tudo que necessitaríamos para os acampamentos superiores. O intuito desse trekking era realmente só levar as coisas e tocar mais uma vez na cota dos 5000m, para voltar e dormir no acampamento base. Eu não havia contratado nenhum serviço de “porteador” e por isso subi com muitíssimo peso. Eu tinha que me concentrar muito em cada passada pois um pequeno vacilo eu perderia o equilíbrio e rolaria até o acampamento base. Fiz muita força e respirei muito aliviada quando cheguei ao acampamento 1, Canadá, a 5000m de altitude.

Sentamos para fazer um lanche e logo em seguida o tempo começou a ficar muito estranho. Ventava muito e as bolinhas de granizo começavam a fazer barulho ao baterem nas barracas. Nos arrumamos e voltamos para Plaza de Mulas, numa descida muito rápida e divertida. Foi o nosso “downhill nas alturas!”

Essa noite nevou MUITO. Acordamos num lugar totalmente diferente do dia anterior e ficamos impressionados com a velocidade com que as coisas podem mudar na montanha. Era um “day off”, ou seja, dia de descanso. Depois disso partiríamos para os acampamentos mais altos, e eventualmente o cume.

Nós frequentamos o médico 3 vezes na montanha, sendo uma no acampamento Confluência e duas em Plaza de Mulas. O exame era sempre muito rápido e eles mediam a nossa pressão, batimento cardíaco, nível de saturação e escutavam a nossa respiração. Esses dados eram essenciais para a nossa continuidade na montanha. A saturação era o dado que mais me preocupava, pois ele dizia o quanto o seu corpo estava se adaptando à altitude. Esse número teria que estar em torno de 90% para que o resultado estivesse muito bom.

Algumas pessoas de nossa expedição começaram a adoecer. Uma delas estava com a saturação muito baixa, que significa água nos pulmões. Isso é um caso muito perigoso e por isso ela teve de ser evacuada. Outro membro de nossa expedição estava com a pressão muito alta e isso também preocupava os médicos.

Nessa tarde fomos informados de que o tempo estava piorando e nosso guia, Pablo, nos informou que ficaríamos um dia extra no acampamento base para ter uma possibilidade de ataque ao cume. Eu começava a ficar preocupada. O que me deixava mais angustiada não era o fato de não chegar aos 6962m, e sim o fato de nem ter a oportunidade de tentar.

Sábado amanheceu nevando bastante. Logo ao abrir os olhos pude ver que o teto da barraca estava totalmente coberto. Senti uma frustração grande, pois eu havia deixado para fazer uma ligação esse dia, mas sem sol não tem carregador solar e consequentemente não tem telefone. Era aniversário do meu namorado e eu havia deixado para felicitá-lo no próprio dia.

Tomei café da manhã e retomei linha leitura. Depois desci até a Galeria do Miguel, onde tem internet e telefone, e realmente as baterias estavam todas descarregadas. Quando conversei com nosso guia, Juan, sobre o telefone ele falou que ia me levar numa outra tenda para tentar. Quando chegamos lá fiquei em êxtase! O telefone estava funcionando, apenas que por quase o dobro do preço. Eu falei muito rápido, mas pelo menos consegui falar e isso me deixou muito feliz.

Quando voltei para a barraca “dome”, abri meu livro com uma sensação de felicidade e dever cumprido. Depois comecei a perceber que a ligação não tinha sido uma boa idéia. Eu estava isolada na montanha, sem conexão nenhuma com o mundo externo, e de repente eu percebi que existia toda uma vida lá fora. Comecei a pensar em família, carinho, conforto, e quando percebi que esses sentimentos estavam rondando minha mente eu rapidamente engavetei tudo. Essa foi mais uma lição na montanha: Não é uma boa idéia ligar para casa.

Coincidentemente, nesse dia tivemos um almoço muito tenso. Eu já notava na cara do Pablo uma preocupação. Ele queria falar algo mas não falava, e isso foi deixando todo mundo calado e apreensivo. Eu estava apavorada com o fato de que ele nos mandaria voltar para casa de ali mesmo, Plaza de Mulas.

Quando ele resolveu se pronunciar, todos nós escutamos com atenção. A previsão de fortes ventos não só se confirmava, como aumentava. Essa é uma das características mais agressivas da natureza e ele não queria expor a tais condições. Ele nos deu a alternativa de voltar para casa no dia seguinte ou prosseguir até o acampamento 2, Nido de Condores, com a certeza de que não íamos ao cume.

Na mesma hora senti um alívio enorme. Eu estava feliz! Vocês podem me perguntar, “Espera aí, FELIZ!?” Sim, feliz pois eu poderia seguir até que a montanha me mandasse voltar para casa. Eu não tive a menor dúvida de que seguiria, mas para a minha surpresa, metade do grupo voltou para casa. Éramos apenas 6 pessoas. Senti que meu irmão estava abalado e dividido por uma tomada de decisão. Resolvi não argumentar meus motivos para ficar, pois não queria influenciá-lo por uma decisão minha. Preciso confessar que se ele tivesse voltado para casa eu teria sofrido com sua falta. Seria, provavelmente, o meu maior teste mental na montanha. Por sorte, no dia seguinte, ele era um dos 6 restantes.

10 comentários para “Capítulo 2: Plaza de Mulas - 4300m

  1. Manuu, acho incrível essa relação que você tem com a Montanha, de respeito, cuidado, admiração. Você inspira muita gente a seguir seus sonhos com cuidado e perseverança. Isso é demais! Você poderia escrever um livro com todas essas suas aventuras maravilhosas! :) Amo amo amo poder me sentir um pouquinho dentro delas lendo esses textos tão emocionantes! Beijão!

    • Ju, saiba que a sua opinião é sempre MUITO IMPORTANTE para mim. Muito legal que você sempre acompanha e curte as coisas que escrevo. É muito legal saber que posso dividir e motivar minhas experiências com amigos como você. Grande beijo!

  2. Maravilhoso tudo isso. A forma como vc transmite ,simples,verdadeira ,com paixao, me faz imaginar,entender e sentir toda essa emocao . Parabens Manu!!! Te amo tambem por isso!

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