Blog da Manu

Capítulo 1: 0 - 3300m

Desta vez resolvi fazer diferente. Vou escrever o relato do Aconcagua em 3 capítulos. Foi uma experiência tão legal que fiquei com vontade de saboreá-la com calma. Espero que vocês gostem! 

Tenho que voltar no tempo e começar pelo começo. Por que decidi vir para cá? Acho que essa é a pergunta mais frequente, pois 95% das pessoas que conheço jamais viriam. Já li muitos livros sobre montanha. Já vi muitos filmes também. Já conversei com muitos montanhistas. Esse assunto me fascina, mas faltava uma coisa: eu precisava viver essa experiência, mas não havia conseguido companhia para ir. Em julho de 2013 meu irmão me disse, “vamos.”

O tempo voou e quando me dei conta já estava em Mendonza. Tivemos nossa primeira reunião com o grupo e conhecemos nossos parceiros, que de ali em diante se tornariam nossa família. Pessoas de diferentes idades, de diferentes países, mas que compartilhavam uma mesma característica: todos haviam estado na montanha, exceto eu e meu irmão. No começo nos olhavam com um pouco de espanto, pois consideravam nossa atitude um pouco arriscada.

Eu não queria mencionar minha vida de atleta. Eu não queria que ninguém achasse que, na minha imaginação, o fato de ser corredora me daria alguma vantagem na montanha. Eu sabia que o comportamento do nosso corpo em altitude era uma incógnita. Foi em Puente del Inca, nossa primeira parada na montanha, quando a Tara, uma australiana, me viu calçando botas novas The North Face me falou, “Lindas botas! Elas são novas. Que coragem vir para a montanha com botas novas.” Nesse momento eu expliquei que era atleta da The North Face e que estava acostumada aos calçados da marca, que eram muito confortáveis. Falei que diversas vezes havia usado calçados novos em corridas e que nunca havia tido um problema. De fato as botas não me deram nenhuma bolha em toda a expedição. Quando conversávamos o Jeff, um canadense, também ouviu e começaram a me fazer perguntas. Depois disso todo mundo ficou sabendo e eu fiz questão de deixar claro de que tinha certeza de que preparo físico era apenas uma pequena característica na montanha.

Já no primeiro dia começamos a conversar bastante. Foi uma troca muito interessante de informações e todos nós ficamos muito amigos. Éramos um grupo de 12 pessoas unidas e motivadas pela grande jornada que teríamos pela frente.

Na manhã seguinte começou a expedição, na entrada do parque a 2900m de altitude. Já era possível avistar o Aconcagua, belíssimo e nevado atrás de montanhas em tons marrom e alaranjado. Nós estávamos vendo a face Sul da montanha, pois a via pela rota normal estava marrom e muito seca. Fazia calor e o sol era muito forte, então nos protegemos com calça, camisa de manga comprida, boné, óculos escuros e muito protetor solar. A primeira caminhada foi fácil, de aproximadamente 3 horas até o acampamento Confluencia, nosso primeiro acampamento na montanha a 3300m de altitude.

Chegamos ali e aprendemos a montar as barracas. Duas pessoas por barraca, ou seja, bastante espaço. Eu dividi a barraca com meu irmão. Havia também uma barraca “dome”, onde todos nós nos juntávamos para fazer as refeições e interagir.

Na primeira noite já fez um pouco de frio. Existe um contraste muito grande entre a temperatura durante o dia e na madrugada e eu sempre tinha que sair da barraca no meio da noite para fazer xixi, devido a quantidade de líquido que éramos obrigados a ingerir. O alvo era cinco litros por dia, para que o corpo aclimatasse da forma mais apropriada. Do jeito que sou disciplinada eu não vacilei. Tinha uma garrafa plástica de 2 litros e uma de 750ml, então usava elas como medida para que eu tivesse controle do quanto já havia bebido.

No dia seguinte fizemos um trekking de mais ou menos 4 horas para El Mirador, atingindo a cota dos 4 mil metros pela primeira vez. Fazia muito calor e ficamos ali sentados por volta de uma hora, almoçando o lanche que havíamos levado e admirando a face Sul do Aconcagua, branca e imponente. Foi a primeira vez que nos aproximamos da montanha e pudemos ver a sua grandeza.

Quando estávamos nos organizando para voltar o Juna, um norueguês, me perguntou se eu não queria voltar correndo. Na mesma hora isso não me pareceu boa idéia. Pensei no que poderia ganhar e no que poderia perder e concluí que eu não tinha nada a ganhar e apenas a perder. Qualquer tombo ou torção poderia ser fim de jogo para mim. Ele seguiu na frente do grupo, sozinho, correndo de volta ao acampamento.

Voltamos caminhando num bom ritmo de trekking e em menos de 2 horas estávamos de volta a Confluência. Quando chegamos lá o Juna não estava. Depois de mais ou menos meia hora ele chegou. Ele havia se perdido e descido muito mais do que devia. Fazia calor, ele estava cansado, desidratado e até assustado. Essa foi a minha primeira lição na montanha.

4 comentários para “Capítulo 1: 0 - 3300m

  1. Que experiência incrível, Manu. Muito bacana a forma como você encara os seus desafios. Humildade, alegria, disciplina e respeito, acima de tudo, são características suas. Fico feliz em saber que você realizou mais esse seu sonho. 2014 está apenas começando e tenho a certeza de que você realizará muitos outros. Você merece. Fico no aguardo dos próximos capítulos. bjs, campeã.

  2. To amando isso!!! Parece um filme!!!! Esperando a parte 2!!!
    Fico imaginando cada sentimento e emocao vividos la e o quanto tudo isso vai fazendo vc uma pessoa ainda mais linda!
    Mais uma vez , Manu , obrigada por nos dar a oportunidade de viver um pouquinho de tudo isso atraves de voce!

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