Blog da Manu

Ultra Fiord 2015

Difícil descrever uma prova como a Ultra Fiord. Desde que comecei a correr ultramaratonas de montanha eu ainda não havia me deparado com uma prova assim. Talvez o La Mision, em 2011, uma prova de 100 milhas com característica auto suficiente, mas ainda sim diferente dessa. Recebi o convite para ser embaixadora da prova, que foi uma honra para mim, mas avisei que não poderia me comprometer com a prova principal, de 100 milhas, e que faria os 70km. Mal sabia eu que estava tomando a decisão mais prudente. Topei na hora porque essa era uma região que eu sempre tive vontade de conhecer, desde quando fazia corridas de aventura. A Patagonia Expedition Race sempre foi um sonho, esse que nunca se realizou. A Ultra Fiord acabou sendo a versão “ultra trail” da Patagonia Expedition Race.

A logística para organizar uma prova como esta é complicadíssima e temos que tirar o chapéu para quem consegue organizar, como é o caso do Stjepan.

Voei para Punta Arenas, depois peguei um transfer para Puerto Natales e para a largada ainda tive que pegar um transfer para o Hotel Rio Serrano, onde foi a largada dos 70 e 100K. Na noite anterior choveu torrencialmente. Eu sempre durmo muito bem antes das provas, mas nessa não. Acordei várias vezes com o barulho da chuva batendo no telhado e não parava de pensar nos corredores das 100 milhas, que haviam largado à meia noite. Quando o despertador tocou às 7h ainda chovia. Eu estava com medo e esse é um sentimento que raramente tenho antes de uma prova. Eu tinha dois receios: me perder na montanha e de ter hipotermia. O lugar tão isolado e inóspito se torna muito perigoso em condições assim. Rezei e pedi proteção para que eu conseguisse chegar até a meta, com segurança.

Assim largamos, às 8h30m, os corredores de  70K e 100K, rumo ao desconhecido. Eu sabia que a prova seria lenta, pois a estimativa era de que o primeiro corredor chegaria com 9 horas. O detalhe importante é que estávamos falando (muito provavelmente) do Xavier Thevenard, vencedor do UTMB em 2013. Eu sabia que minha prova duraria de 12 horas para cima e saí com isso em mente.

Começamos correndo por um pasto e um pequeno pelotão se formou à minha frente, com uns 10 homens, e uma mulher, que puxava o ritmo. Ela era Sylvanie Cussot, atleta Ascis, que competia também nos 70K. Eu me sentia bem e seguia em ritmo confortável. Com 15 minutos de corrida chegamos a um ponto onde devíamos cruzar um rio. A água congelante batia no meu peito e meu coração disparou com o frio. Quando saí na margem do outro lado meu corpo queimava, mesma sensação que tive no Desafio de los Volcanes, quando cruzei um rio de água gelada como este. Eu voltei a correr, tentando me adaptar à estranha sensação de estar com o corpo todo enrijecido.

Segui por um trecho de trilha, que ainda era bastante “corrível”, até que ele começou a piorar. A lama, que afundava até o joelho, começou a aparecer com mais frequência. As turbas também apareceram para sugar nossa energia ainda mais. Fazia muito frio e eu corria sem sentir o pé. Isso era muito estranho, mas eu procurava me adaptar e driblava o desconforto. Era muito fácil cair e por isso eu ia com muita atenção. Eu seguia super concentrada, me alimentando e me hidratando bem.

Em certo momento passei o Enzo Ferrari, que vinha na prova das 100 milhas, e me disse que a Sylvanie estava logo a minha frente. Quando a alcancei ela abriu para que eu passasse, me felicitando e encorajando. Eu fazia o mesmo com ela, falando um pouco do que sei em francês. Segui em bom ritmo até o checkpoint do quilometro 29. Ali comi um pouco de noodles, reabasteci minha mochila com as coisas que havia deixado no drop bag, peguei meus bastões e segui rumo ao trecho de montanha. Eu já sabia que o que vinha pela frente não seria nada fácil, por isso preparei minha mente.

Comecei a subir e muito rapidamente notei o ganho de altitude. Olhava para baixo e via o gigante Glacial Grey ao fundo, enriquecendo ainda mais a bela paisagem. As estacas azuis guiavam a subida, que se tornou cada vez mais complicada e difícil. Ela era íngreme e havia muita neblina. Não havia uma trilha marcada e eu andava em cima de mato fechado. Por sorte, desta vez eu corria com as pernas protegidas. Às vezes eu ficava um pouco perdida porque estava difícil de avistar as estacas. Eu estava sozinha e precisava redobrar a atenção. Com o ganho de altitude a vegetação foi substituída por pedras e pela neve. Às vezes eu tinha que cruzar alguns trechos de árvores baixas, fechadas, que me faziam contorcer por inteiro para conseguir atravessar. Quando cheguei ao topo da primeira parte da subida avistei o Marcelo Sinoca e o Fernando Nazario, ambos corredores brasileiros. Quando o Sinoca me viu deu logo um grito e eu gritei de volta. Fizemos uma festa na montanha!

Cruzei a primeira crista e comecei a descer pelas pedras. Eles estavam um pouco mais a frente e eu podia vê-los, o que facilitava um pouco a minha navegação. Havia bastante névoa e ficava difícil saber exatamente o que vinha pela frente, mas eu tinha a altimetria na cabeça e sabia que ainda teria uma longa subida pela frente. O terreno era extremamente técnico, com muitas pedras soltas e expostas, variando entre subidas e descidas muito íngremes. Assim fui até que cheguei numa parte onde estava rodeada de montanhas altas. Eu sabia que não sairia daquele lugar sem subir uma delas e quando olhei para cima avistei o paredão de neve por onde deveria seguir. Eu via muito lá longe uma pessoa no final da subida e não me restava dúvidas de que o meu caminho era mesmo por lá. Nesse momento já estava junto do Fernando e o Marcelo estava um pouco para trás porque havia parado para pegar um anorak na mochila. Assim começamos a subir o glacial, que estava nevado. Apesar da neve ser fresca, ele estava bastante escorregadio e eu via o quanto tinha sido sábia a minha decisão de levar os bastões. Era uma subida longa, íngreme e fazia frio. O visual era de outro mundo. As montanhas a minha volta eram paredes gigantes de pedra, numa formação em que eu jamais havia visto. Era como se elas tivessem sido desenhadas, uma a uma, com pequenos riscos em uma caneta bico de pena. O glacial, imponente, num azul brilhante e vívido, completava a paisagem. Eu não parava de admirar e não parava de agradecer o momento. Foi realmente muito especial e gratificante para mim.

No topo o vento soprava muito forte, mas assim que passei a crista e comecei a descer, ele cessou por completo. Esse foi o momento mais divertido da prova, onde tive a sensação de voltar a ser criança. Estava tudo nevado e eu corria em alta velocidade a montanha abaixo. Com a neve fofa é possível cravar o calcanhar e descer muito rápido. Eu avistava as estacas azuis na neve e me divertia montanha abaixo. Em certo momento corri ao lado de uma crevassa e confesso que meu deu um certo arrepio, mas que ao mesmo tempo foi inesquecível. O vale embaixo era gigante e fica fácil ver a nossa insignificância perante a natureza. Eu me emociono com esses momentos.

Comecei a subir novamente uma parede de pedras, essa muito diferente das anteriores. Eram lascas de pedras de diversos tamanhos, e eu passava por trechos muito expostos. Eu subia com atenção para não cometer nenhum erro e, mais uma vez atingindo a crista, comecei a descer um trecho de pedras muito íngreme, seguido de neve. A minha visão nesse momento foi tão maravilhosa que me faltam palavras para descrever. Eu descia uma enorme rampa de neve correndo e abaixo de mim estava um lindo lago gigante, virgem, cor de esmeralda, cercado de montanhas enormes, que ali se viam refletidas. Foi uma das visões mais belas que já tive e eu me sentia abençoada por estar vivendo tudo isso.

Nesse momento notei que as estacas de marcação estavam ficando muito espaçadas umas das outras. Era necessário ter muita atenção e navegar. Eu me orientava pelas pegadas na neve e rezava para que estivesse indo na direção certa. Algumas descidas de neve eram tão íngremes e escorregadias que eu sentava e descia de bunda. Foi muito divertido e engraçado, mas quando a neve acabou eu comecei a ter problemas com a navegação. Uma forte neblina entrou e eu já não consegui saber para onde eu tinha que ir. Desci para um lado e não vi nada. Desci para o outro e não vi nada também. Voltei até a última estaca e fiquei parada. Olhei para cima e o Fernando começava a descer o trecho de neve e achei melhor esperar para que pudéssemos ir juntos, navegando. Quando ele chegou começamos a fazer a caça ao tesouro, e nos dividíamos em busca das marcações, solução essa que nos salvou. Passamos por mais um lindo lago e começamos a descer rumo ao posto de controle. Essa última descida estava muito escorregadia e perigosa e tomei vários tombos até chegar de volta no bosque.

Quando chegamos no posto de controle estávamos no quilômetro 45 e me faltavam apenas 25, mas que não significava que seria rápido. A progressão ali também era lenta, pois a trilha tinha muitos obstáculos. Apesar de eu e o Fernando estarmos juntos, seguíamos calados, porém correndo. Era bom ter companhia, mas não para conversar, pois conversar distrai e demanda energia. Nos ajudávamos mutuamente a seguir em bom ritmo, com o intuito de chegar ao quilômetro 70 o quanto antes. Era um bosque lindo, que muitas vezes beirava um rio, e que subia e descia constantemente. As árvores de folhas vermelhas e amarelas traziam um pouco de calor àquela atmosfera tão fria. Eu também me esforçava para progredir rapidamente para que não tivesse que correr muito tempo à noite, quando a temperatura cairia ainda mais. Assim seguimos até o último posto de controle, que me deixava apenas um trecho de 12km até a chegada.

 Eu estava me sentindo bem e animada, apesar de dois entorses que tinha acabado de fazer. Não deixei o corpo esfriar e rapidamente voltei a correr, ignorando a dor. Eu e Fernando seguíamos juntos, da mesma forma que vínhamos até então. Estávamos super concentrados e com a cabeça no quilômetro 70, onde seria a minha meta e onde ele pegaria sua segunda drop bag para seguir até o final da prova (ele estava na categoria dos 100km). Depois de muito tempo sem falar nada ele disse que devíamos estar chegando. Eu achava estranho pois estávamos no meio do nada e eu não via nenhuma luz. O bosque foi acabando e começamos a correr num trecho aberto, com vegetação baixa. Era fácil navegar com a lanterna nas marcas refletivas e isso nos mostrava nosso rumo. Foi aí que notei uma luz diferente do brilho das estacas. Quando fomos nos aproximando a luz começou a piscar e alguém gritou. Estávamos perto da meta. Avistamos um carro parado e o farol iluminava o rio que tínhamos que cruzar. Ao cruzar escutei muitos gritos, avistei luzes e pude visualizar a meta.

Cruzei a chegada muito contente e com muita energia, comemorando o feito. Era uma sensação mista de satisfação e alívio. Eu estava feliz de ter conseguido chegar bem, sem nenhum grande susto, e ainda por cima por ter sido a primeira mulher e quarta colocada geral nos 70Km. Foi uma prova super difícil, numa região totalmente inóspita. Tive medo de não conseguir chegar ali, e quando cheguei a descarga de energia foi muito grande. Entrei na barraca, sentei, e comecei a comer. Entre sorrisos e garfadas eu contemplava aquele momento muito especial.

Aos que estão se perguntando se a prova foi difícil demais…

Sim, foi. Ao mesmo tempo, como realizar uma prova num lugar tão lindo e isolado sem esse grau de dificuldade? É muito difícil. Os lugares por onde passamos são inéditos e selvagens. Até para chegar no lugar da largada é complicado, pois é muito longe. Abandonar a prova no meio é quase impossível, pois você tem que conseguir chegar em algum lugar de acesso. Eu acho que para quem quer viver uma experiência como esta, esse é o preço. A pessoa precisa estar preparada. Em nenhum momento achei que fosse ser fácil e acredito que a minha cabeça estava condicionada a fazer o que fui fazer. Não me arrependo e voltaria. A sensação de superação é indescritível.

Parabéns a todos os corredores que largaram, em especial aos amigos brasileiros Marcelo Sinoca e Fernando Nazario!

13 comentários para “Ultra Fiord 2015

  1. Que relato impressionante e muito bem escrito, parabéns manu!!!! Espero um dia correr essa prova e te ver correndo. Saiba que sou seu fã e acompanho a sua trajetória, você prova que nesse esporte nao têm essa que homem é mais forte que a mulher. Parabéns pela conquista e por representar o nosso país. Um grande abraço!!!

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