Blog da Manu

The North Face Xterra Endurance 80K

Os 80km do The North Face Xterra de Ilhabela foram um misto de muitos sentimentos diferentes. Eu diria, resumindo, que foi a realização de um sonho e de que somos capazes de muitas coisas que não imaginamos. Basta querer.

Eu sabia da dificuldade envolvida, sabia que a missão era um tanto quanto difícil. Oitenta quilômetros de bike já é muito, imagina a pé! Adversárias fortes, calor, percurso técnico, altimetria pesada. O que mais eu poderia querer? A dificuldade me encanta, a superação nem se fala. Eu tinha um prato cheio diante de mim.

Largamos às 13:15 da tarde, debaixo de calor e umidade. Eu estava equipada para uma longa jornada. Mochila TNF Enduro 13, Single-Track no pé, Hammer Gel, Perpetuem, Heed, protetor solar e é claro, um Ipod, com uma playlist recheada de incentivo.

Larguei muito calma, muito concentrada. Não prestei atenção em nada. Eu só pensava em mim e na trilha. Eu estava focada, quase em transe. Ocupava a quarta posição no princípio, e quando começaram as subidas fui buscando melhorar. Consegui alcançar a ponta ainda no trecho onde foi o percurso do mountain bike do triathlon. Quando cheguei perto do asfalto fui ultrapassada pela Tracy e pela Cyntia.

O longo trecho de asfalto foi sofrido. Comecei a ter dores no estômago e diarréia. Foi muito difícil para mim, mas eu resolvi pensar diferente. Numa hora dessas é mais fácil pensar que a dificuldade veio para te derrubar. Dói. Dói demais! Mas eu resolvi pensar diferente. Pensei que aquilo era mais uma dificuldade pela qual eu deveria passar. Aquela era uma dor com a qual eu iria conviver até cruzar a linha de chegada e eu simplesmente aceitei isso. Eu corria ao lado da Tracy e às vezes entrava correndo no mato num ato de desespero. Voltava para a prova e corria forte para buscá-la de novo. Nós disputávamos o segundo lugar e a Cyntia liderava.

Entramos na trilha do Bonete e ali comecei a me sentir melhor. Abri da Tracy. Já estava escurendo e o calor tinha dado uma trégua. Eu me alimentava e me hidratava. Sabia que meu corpo estava debilitado e buscava não deixar faltar energia.

Num certo momento alcancei uma luz. Lá estava a liderança da prova. Eu me sentia muito bem e motivada, então passei forte, sem olhar para o lado. A trilha muito técnica e escorregadia.

Abri bastante e fiquei sozinha um tempão. Eu cruzava cachoeiras, corrida em cima de pedras, para cima e para baixo, delirando com tudo aquilo. Em certos momentos eu me pegava de braços abertos, sorrindo e curtindo a energia daquele lugar. Eu pensava para mim mesma que tinha que aproveitar aquele momento porque ele estava muito bom.

Quando percebi já estava no quilometro 45, o primeiro Special Needs. Passei voando e só peguei o sanduíche que havia deixado. Fome a gente não sente, mas a gente come. O sanduíche vira combustível numa questão de segundos e nos dá energia para seguir.

Acho que de ali em diante, até chegar na praia de Castelhanos, foi a parte mais cruel do percurso. Cruel, porém a mais legal. Pegamos uma trilha que levava para a praia e que era uma piramba interminável, extremamente técnica. Light sticks indicavam a direção, que não era para frente, e sim para cima. Uma loucura! Não se via mais de uma luz de uma vez. Era muito alto. Chovia muito, muitos galhos e pedras escorregadias, buracos e armadilhas. Foi duríssimo.

Minha lanterna começava a piscar, mas eu havia deixado uma reserva no quilometro 60, no segundo Special Needs. Quando comecei a descer imaginei que a praia estivesse chegando. Quando cheguei lá embaixo pude ver aquela linda faixa de areia iluminada por uma grande quantidade de tochas. Cheguei ao quilômetro 60!

Muitas pessoas estavam lá e me incentivavam pelo tempo que estava fazendo. Eu ocupava a sexta posição geral na prova. Quando fui pegar o meu Special Needs ele não estava lá. Não só o meu, mas o de ninguém dos 80km. Vi que aquilo poderia ser um grande problema. Não pelo sanduíche, tênis e corta vento que eu havia deixado, mas pela lanterna reserva. Consegui ali, de um corredor que havia desistido dos 50km, uma pequenina lanterna. Peguei uma banana, uma mão cheia de amendoim e segui.

Eu estava motivada e forte, então entrei na estratégia da iluminação. Comecei a correr no escuro, só no led, para economizar para a descida. Chovia muito e o fog estava intenso. Eu corria e quando sentia que estava muito pesado, imaginava que estava numa subida inclinada. Não dava para enxergar quase nada. Caminhava num ritmo forte até que aliviasse um pouco, e voltava a correr.

Quando cheguei no quilometro 70 estava no topo da subida de Castelhanos. Imprimi um ritmo muito forte e comecei a descer. O batedor veio de moto me acompanhar e falou que iria comigo até a chegada. Eu não sabia onde estava a segunda colocada, então descia muito rápido, buscando a certeza de que o primeiro lugar seria meu. Quando cheguei perto do quilometro 75 encontrei o Marcelo Sinoca, do time The North Face. Motivei para que ele viesse comigo e seguimos juntos, muito forte. Quando chegamos no plano ele abriu. Eu não bebia água, não falava, não pensava. Eu só corria. Corria como se meu corpo fosse uma máquina. A máquina que cumpriu os 80km de Ilhabela, motivada por um coração. Esse coração sim, enorme, maior que tudo, cheio de positividade e paixão pelo esporte, pela natureza, pela vida.

Não tenho muitas palavras que traduzam essa vitória. Tenho um sorriso para traduzir.

Agradeço muito a torcida de todos e fica a dica: Love your life, Love what you do. NEVER STOP EXPLORING!

Parabéns a todos os competidores, em especial ao meu amigo e treinador Iazaldir Feitoza, que conquistou o primeiro lugar geral masculino, meu amigo Chico Santos que conquistou o segundo geral masculino e meu amigo de equipe Marcelo Sinoca que conquistou o quinto lugar geral masculino.

4 comentários para “The North Face Xterra Endurance 80K

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