Blog da Manu

Capítulo 3: A natureza feroz

Do capítulo anterior…

Na mesma hora senti um alívio enorme. Eu estava feliz! Vocês podem me perguntar, “Espera aí, FELIZ!?” Sim, feliz pois eu poderia seguir até que a montanha me mandasse voltar para casa. Eu não tive a menor dúvida de que seguiria, mas para a minha surpresa, metade do grupo voltou para casa. Éramos apenas 6 pessoas. Senti que meu irmão estava abalado e dividido por uma tomada de decisão. Resolvi não argumentar meus motivos para ficar, pois não queria influenciá-lo por uma decisão minha. Preciso confessar que se ele tivesse voltado para casa eu teria sofrido com sua falta. Seria, provavelmente, o meu maior teste mental na montanha. Por sorte, no dia seguinte, ele era um dos 6 restantes.

Nos abraçamos e nos despedimos, com rumos inversos. Mesmo sabendo que não tínhamos chance de chegar ao cume, com cada abraço vinha o comentário, “Eu espero que vocês consigam”, nos enchendo de esperança. Eu sabia que a única certeza de que não conseguiria, seria se eu tivesse voltado para casa daquele ponto. Seguindo para o alto nós conseguíamos manter a chama acesa.

As mochilas estavam pesadas, mas como nós conhecíamos o caminho, nossas vidas foram facilitadas. O dia estava maravilhoso. Aliás, se eu puder nomear um dia mais lindo da expedição, sem dúvida seria esse. A montanha ainda estava branca e eu escutava o som suave das botas afundando na neve. Fizemos poucas paradas e quando me dei conta já estávamos entrando no acampamento 1, Canadá. A decisão de seguir em frente nunca foi tão certa, tão válida.

Dividimos o acampamento com mais algumas equipes, mas não foram muitas. A montanha havia sido evacuada porque havia tanta neve e a previsão de ventos fortes nos próximos dias. Montamos nossas barracas e iniciamos o processo de derreter neve para beber. Não havia nenhuma fonte de água por ali.

O fim de tarde foi simplesmente sensacional. Não fazia tanto frio ainda e por esse motivo conseguimos ficar do lado de fora das barracas. Caminhamos até um aglomerado de pedras que nos dava uma visão sensacional da montanha e do vale abaixo de nós.

Entre uma foto e outra olhávamos o cume. Acho que desde que subimos não conseguimos parar de olhar para cima. Os olhares eram parecidos. Todos nós tínhamos o mesmo brilho, o brilho de esperança. Embora eu soubesse que era impossível eu não conseguia me desgarrar da esperança. Eu ainda acreditava.

Esta noite foi uma noite muito difícil para mim. Logo depois de jantar comecei a sentir o estômago embrulhado. As dores foram intensificando bastante. Durante a noite tive que sair 4 vezes da barraca para ir ao banheiro. Fazia muito frio e esse processo, nos acampamentos mais altos, é sempre complicado. O simples fato de entrar e sair da barraca demanda muita energia. Pegar no sono de volta também não é fácil, já que perdemos calor com muita facilidade. O resumo desta noite é que quase não dormi.

A manhã seguinte foi tão linda quanto a anterior. Fazia muito frio e os guias já haviam derretido neve para que a gente pudesse tomar nosso café da manhã. Eu não conseguia pensar muito em comida, mas forcei uns biscoitinhos e um copo de café pois eu sabia que de ali em diante seria muito mais intenso. E de fato foi.

Saí muito animada para esse trecho porque ele era o até então, “desconhecido”. Algumas coisas tornavam essa parte da montanha mais misteriosa para mim. A altitude era desconhecida pelo meu corpo e o visual tinha uma particularidade muito interessante. De baixo era possível avistar uma crista, onde nós sempre pensávamos ser o final do trekking e chegada no acampamento. Para a minha surpresa, quando chegamos nesse ponto, ainda faltava um bom pedaço.

A minha mochila estava extremamente pesada. Eu nunca carreguei tanto peso na minha vida, e em altitude, ele foi elevado a uma potência ainda maior. Eu não podia me desconcentrar pois qualquer vacilo poderia me levar montanha abaixo. A neve, que virava gelo com o forte sol, tornava tudo ainda mais difícil. Sem a menor dúvida eu adentrei um portal e me encontrei numa situação completamente das situações vividas nos dias anteriores. Ali eu senti que a brincadeira ficou muito mais séria.

Paramos duas vezes para comer, sendo que a segunda um pouco mais demorada. Confesso que quando o Pablo anunciou a segunda parada eu me joguei no chão imediatamente. Eu estava exausta, suplicando mentalmente para que ele parasse.

Quando finalmente chegamos em Nido de Condores, a 5500m, meu coração se encheu de emoção. Só consegui virar para trás, dar um longo abraço no meu irmão, e falar baixinho, “Nós conseguimos.”

Ali foi a perspectiva mais incrível que tivemos. Todas as montanhas que víamos de baixo, agora nós víamos de cima, exceto o cume do Aconcagua. Ele estava ali “pertinho” e eu tinha a sensação de que poderia tocá-lo. O sol ainda estava alto e os ventos relativamente tranquilos. Eu tinha certeza de que a montanha nos concederia mais um passo.

Começamos a tirar neve do chão e abrir uma clareira para montar nossas barracas. Embora estivéssemos cansados, sabíamos a importância de completar esse processo o quanto antes, pois aí sim estaríamos liberados para comer, nos hidratar e descansar. Trabalhamos em grupo, todos focados em uma mesma barraca, até passar para a próxima. O vento começou a soprar mais forte. Quando acabamos tudo, entramos na barraca, totalmente esgotados, e descansamos. O barulho lá fora só ficava mais forte.

Saímos para dar uma volta e olhar a vista do outro lado de Nido de Condores. Muito difícil descrever a beleza daquele lugar, pois ele tem uma característica única e especial. Não parece real e eu tinha a nítida sensação de estar dentro de um sonho. Tiramos algumas fotos e voltamos para a barraca.

Comi um prato de macarrão, mas meu irmão estava enjoado e não conseguia se alimentar muito bem. Consegui ver na sua fisionomia que ele não se encontrava bem. Um pouco depois o Pablo entrou na nossa barraca e nos olhou com uma expressão bastante triste. Ele nos disse, “Amanhã vamos descer. É hora de voltar. A montanha está nos mandando para casa.” Nos olhamos e fizemos “sim” com a cabeça.

A noite foi muito difícil. Os ventos só aumentavam e eu era acordada o tempo todo com a barraca me dando socos na cabeça. Eu estava com todas as roupas que tinha. Coloquei 4 meias porque não queria sentir frio, mas a temperatura despencou imediatamente com o pôr do sol. Não havia nada nem ninguém do lado de fora. Não havia nada nem ninguém acima de nós na montanha, exceto dois corpos que ficaram abandonados alguns dias antes da nossa entrada na montanha.

Ali é possível ter uma noção da magnitude da força da natureza. Ali construímos sentimentos de respeito muito maiores que já havíamos conquistado. Ali mudamos nossos valores. Ali nos transformamos em seres purificados e evoluídos. Tudo acontece de repente. Ali encontramos respostas para muitas coisas que indagamos e ali foi o meu momento mais especial na montanha. Foi quando entendi o que eu fui fazer no Aconcagua.

No dia seguinte quando acordei, meu irmão estava pior. Ele sentia fortes dores de cabeça e já havia vomitado algumas vezes. Ele enfiava tudo na mochila e me dizia, “Eu vou descer”. Todos nós íamos descer, mas ele estava desesperado e queria sair de lá o quanto antes. O vento estava tão forte que a barraca parecia que ia voar. Eu me aprontei e fiquei deitada lá dentro, fazendo peso para que ela não voasse. A montanha nos mostrava sua face mais feroz.

Desmontamos tudo, colocamos os crampons e nos preparamos para descer. Fazia um frio absurdo. Começamos a andar e eu sentia as mãos congeladas. Eu sentia tanta dor que hiperventilava. Eu segurava os bastões, sem sentí-los direito. Minhas mãos pareciam um bloco e eu chorava de dor. Foi nessa hora que o Juan me abordou, pedindo que eu mexesse os dedos. Eu não conseguia, e lutava contra aquele sentimento horrível. Seguimos andando e ele gritava para eu não parar de mexer os dedos. O vento era tão forte que eu sentia que ia cair, mas firmava as pernas para não me colocar numa situação ainda pior. Tenho certeza de que, se alguém estivesse questionando o fato de ter que descer, ali tirou seu questionamento. Seguir subindo era simplesmente impossível.

Depois de meia hora descendo já era possível sentir um conforto muito maior. Os ventos diminuem, e consequentemente as temperaturas elevam. Em pouco tempo já estávamos bem de novo. A descida é muito mais rápida, porém não é tão fácil. Com a mochila tão pesada eu perdia o equilíbrio com freqüência e caía. Depois de 3 horas chegamos de volta a Plaza de Mulas, nossa zona de conforto.

Tudo que parecia primitivo quando chegamos ali na subida, parecia luxuoso na descida. Até o banheiro horrível ficou melhor! Fomos recebidos pelo Alejandro, que nos esperava com a máquina fotográfica não mão, e sem seguida entramos na barraca “dome” e fomos recebidos com os tão famosos hamburgers (todos que desciam da parte alta da montanha, tendo atingido o cume ou não, tinham direito ao hamburger). Nos deliciamos com todos aqueles mimos e comemoramos o fato de estarmos todos bem. O dia seguinte já dormiríamos em Mendonza.

A última noite na montanha é sempre a última noite. As cabeças já estão focadas em casa, família, conforto. Pensávamos que na noite seguinte já estaríamos no hotel, tomaríamos banho quente e comeríamos num restaurante gostoso. Voltamos a dar valor às coisas “básicas” do dia a dia, que na verdade jamais paramos para valorizar.

No dia seguinte nos arrumamos cedo e voltamos de Plaza de Mulas até a entrada do parque, onde encontramos a van e voltamos para a civilização.

Durante a caminhada de volta, em Playa Ancha, o Michael veio conversar comigo. Ele me disse que estava triste e senti que ele não havia aceitado o fato de que não fomos ao cume. Voltei para ele e expliquei que na minha cabeça era muito simples:

Eu li no livro do Dalai Lama uma coisa que carrego comigo para quase todas as situações da vida. Quando um fato existe, nós não podemos mudá-lo. Nós não podemos mudar o fato de que não atingimos o cume (pelo menos não naquele momento). Dado isso, nós temos duas opções de caminho a seguir: ficar triste e frustrado de não ter conseguido, ou ficar feliz com a experiência vivida. Seja lá qual for o caminho que você escolher, você não pode mudar o fato de que não atingiu os 6962m. A opção é sua. Eu escolho sempre o caminho positivo.

Um pouco antes de sentar para escrever este último capítulo, meu pai se sentou na minha frente para falarmos sobre coisas de nossa empresa. Ele me contou diversas dificuldades que passou, muitos anos antes de eu entrar como sócia dele, e ao final de tudo me disse, “Na minha vida eu sempre aprendi muito mais com as dificuldades do que com as coisas boas”. Isso eu aprendi com ele há muito tempo, e também apliquei à minha experiência na montanha.

Dois meses antes de chegarmos lá, todo dia era dia de cume. Uma semana antes, nossa guia Inês nos contou que subiu sem luvas! Mas porque nós pegamos uma condição tão adversa? Porque na verdade tivemos sorte. Com certeza aprendi muito mais com tudo que passei do que se tivesse chegado ao cume, sem luvas, e tirado uma foto com a minha bandeira. Não é fácil aprender com situações difíceis, mas se temos maturidade para enxergar que elas nos deixam lições, esse é o aprendizado mais rico que podemos ter. E o fato de não ter atingido o topo? Ele apenas me deixa uma janela de vontade e a certeza de que estarei lá novamente.

Ah, e uma observação a mais! Lembra daquela primeira noite no hotel (na volta), que teoricamente seria a melhor noite da viagem porque iríamos dar valor às pequenas coisas… blá, blá, blá? Pois é, ela foi a pior noite de todas. Depois que cheguei, baixei meus e-mails e não dormi mais. Minha cabeça ficou repleta de preocupações e eu pensei, “Nossa, como era mais fácil dormir na barraca.” De fato meus valores mudaram.

14 comentários para “Capítulo 3: A natureza feroz

  1. Tão desafiadora quanto esplêndida sua experiência, Manu. Seu relato transmite emoção a quem lê e, principalmente, a quem já te acompanha há algum tempo e torce por você. Mesmo com pouca idade e com pouca experiência nesse mundo que você domina com maestria, identifico-me quando você faz menção à mudanças de valores, sentimentos e emoções vividas, respostas para questionamentos internos, situações com as quais aprendemos e nos tornamos seres melhores. Acredito que essa atmosfera que cerca essa nossa paixão pelo esporte e pela natureza contruibui muito para isso a cada dia que passa, a cada nova aventura vivida, a cada novo desafio encarado. É por essas e outras que você tem essa quantidade enorme de fãs que torcem por você e que te admiram como atleta e como pessoa, principalmente. Parabéns por mais essa aventura bem sucedida e pela forma como você a encarou. 2014 está apenas começando! Vamos com tudo e never give up!

    • Oi Daniel!
      Te agradeço de coração por sempre se dedicar a escrever comentários tão bacanas. Tenha certeza de que são sempre um incentivo enorme para mim, inclusive para que eu continue escrevendo e dividindo meu aprendizado com vocês. Já soube pelo Sinoca que você é um aluno muito dedicado e que vai muito longe. Eu não tinha dívida disso. Parabéns e Never give up!!!

  2. Manu, mais uma vez fiquei com o coração apertado, imaginando o que vcs passaram….vontade de estar lá fazendo um chá bem gostoso,arranjar mais um cobertorzinho para vcs!!!…. A ansiedade aperta o peito…. Mas confio e sempre torço para que vc realize seus sonhos de Mega Super Atleta!!!!!!!! Bjsss Amanda

  3. Como sempre, relato emocionante. Mais uma vez me fez chorar! Como disse a Amanda aí em cima, coração apertado só de imaginar tudo que vocês passaram. Antes de você ir pra lá você me disse que iria em busca de se livrar de algumas coisas e se espiritualizar. Tenho certeza que o resultado foi muito mais que isso, e só vocês que passaram por todos esses momentos incríveis podem dizer o que a montanha realmente trouxe para a vida de vocês. Mais uma vez parabéns pela conquista Manu, estarei torcendo sempre por essa amiga tão especial e que eu tanto admiro! :) Beijão!!!

    • Ju, que fofa! Você é muito querida :)
      Sem palavras para agradecer seu carinho e seus comentários. Pode ter certeza de que isso me motiva muito e leva sempre para frente. É um prazer dividir minha experiência com pessoas como você.
      Beijo grande :)

  4. Emocionante Manu, lindo relato, vc nos faz estar lá com vc enqto lemos. Parabéns pelas conquistas emocionais, pela sabedoria e humildade, é emocionante ver a união entre vc e Jaiminho . Bjs

  5. hola Manu..

    genial todo lo que escribiste¡¡¡¡ te felicitoo¡¡¡

    fue un gusto haber compartido con vos esta experiencia, y tengo la certeza que no sera la ultima..

    besos

    • Hola Pablo!!!

      Todos los dias tengo recuerdos de Aconcagua. Seguro que vamos a volver, y queremos volver con vosotros! Ojalá que la montaña nos deje subir :)

      Te agregué en facebook. Seguimos en contacto!

      Besos y gracias por todo en la expedición.

  6. Ler seu texto me fez ter uma saudade absurda do Aconcagua e por 5 minutos eu senti como se estivesse la de novo.
    Eu assim como voce cheguei ate Nido de Condores, com meu irmao e parceiro, Fred. E assim como voce tive que descer. Mas desci porque eu era o que estava passando mal. O Fred como irmao que eh, abandonou a viagem e voltou comigo.
    Caso tenha interesse, fiz esse video da nossa expedicao (um video meio ruim mas da pra ver o momento da minha volta e ver como estava triste em voltar)

    https://www.youtube.com/watch?v=gvC_tTxCz0I

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