Blog da Manu

A tentação das longas distâncias

Escrevo esse texto porque recentemente tenho escutado muitas pessoas comentando que vão fazer provas de 160km, muitas vezes sem ter corrido uma prova de 80km. Esse é o meu ponto de vista sobre o assunto:

É indiscutível que as corridas de montanha dispararam em popularidade nos últimos anos, especialmente no Brasil. Embora eu seja uma atleta profissional nessa modalidade, eu me considero um pouco novata também. A minha primeira prova foi o La Mision, em dezembro de 2011, e essa foi a minha entrada no mundo das Ultra Trails. Com isso recebi o convite para integrar o time The North Face Brasil, que foi um estímulo enorme para mim.

Já o ano de 2012 foi um ano transitório, onde eu ainda competi em diversas modalidades. Comecei com o Tierra Viva, uma corrida de expedição de 500km, participei de diversos Xterras e inclusive o Xman (um ironman todo off-road), fiz mountain bike e também algumas provas de ultra trail de 50 e 80km. Foi uma loucura, pois eu estava numa batida de competir um fim de semana sim e outro não. Após uma conversa com meu treinador, chegamos à conclusão de que eu teria que focar e a partir de 2013 comecei a me dedicar 100% às Ultras.

Por que estou escrevendo e contando tudo isso? Recentemente tenho notado que as pessoas estão muito empolgadas com essa modalidade. Muitos atletas estão migrando de outras atividades e entrando nas trilhas. Isso é maravilhoso, porque todos nós nos beneficiamos por esse crescimento. Atualmente o calendário nacional conta com uma grade extensa de provas, onde podemos competir quase todos os finais de semana. Mas o problema está nas distâncias.

O desafio de correr longas distâncias atrai a todos. A experiência, a superação, a novidade. Tudo isso se torna uma isca um tanto quanto tentadora, mas que pode ser perigosa também. São distâncias muito longas e não podemos negar de que existe um impacto muito forte no organismo. Pode parecer contradição eu falar isso pois a minha primeira Ultra foi uma de 160km. Como eu estaria argumentando contra isso se eu mesma fiz?

Eu fui atleta de corrida de aventura. Nas corridas de aventura eu fiz provas de 4 horas de duração até provas de 100 horas de duração. Essa Tierra Viva, da qual falei no início do texto, foi uma prova na Patagonia que durou 100 horas e onde dormimos apenas 3 horas. Remamos, pedalamos, subimos e descemos muitas montanhas. Passamos frio, sono, cansaço.

Provas de expedição como essa eu fiz várias. O que eu mais tenho é história para contar e com isso também ganhei muita experiência. Já submeti meu corpo a muitas coisas que muita gente nunca fez. Essa “bagagem” que adquiri na corrida de aventura é a minha maior aliada nas corridas de Ultra Trail. Eu posso não ter tanta experiência de corrida, mas eu conheço meu corpo detalhadamente.

Também vale ressaltar que as provas de 160K estão fora do Brasil e a geografia e clima mudam MUITO. As montanhas são montanhas de verdade. O terreno pode ser muito técnico. O frio pode ser abaixo de zero, com neve e rajadas de vento assustadoras. O trajeto pode ser em altitude. São condições muito diferentes das que encontramos aqui.

Hoje vejo muita gente pulando etapas, ou subindo muito rápido. O problema é que não tem como compactar ou fazer um “supletivo” de experiência. Experiência só vem com o tempo, com vivência, e são “horas de voo” necessárias para corridas tão longas. É muito importante conhecer a si mesmo em cada detalhe. Saber o que o corpo aceita e rejeita, e que muda muito após muitas horas. É importante saber lidar com sono, cansaço e muita dor. Não existe uma forma de compactar o tempo, e o que conta numa prova de 160K é o tempo. Por isso acho um bom conselho que os atletas respeitem as etapas e subam gradualmente, para que uma prova de 160K se torne uma experiência maravilhosa e não um pesadelo.

Bons treinos, vida longa e Never Stop Exploring!

27 comentários para “A tentação das longas distâncias

  1. Legal, gostei do tema. Tenho pensado muito nisso ultimamente tb. Pulei dos 21 pros 100. Me machuquei feio e to parado até hj. O imediatismo mata a gente… Não me arrependo, mas se fosse hj não faria mais, vou regressar aos 20-40…

    • Pois é, Felipe, dos 21 aos 100 tem um salto muito grande. Fico triste com o fato de que você tenha se lesionado, mas ao mesmo tempo pense que você aprendeu uma grande lição. Tenho certeza de que você não se arrepende, mas quando voltar, voltará mais prudente. Boa recuperação e espero que você esteja correndo em breve.

  2. Obrigada por compartilhar sua experiência! Qualquer que seja o nível, qualquer que seja a modalidade, qualquer que seja o esporte, a progressão gradual é fundamental.

  3. Parabéns pelo ótimo texto… estava em Ilhabela este ano nos 80km… o legal do trail é o companheirismo… ficamos todos preocupados quando passamos por Castelhanos e depois felizes com sua recuperação… parabéns… grande atleta, grande pessoa…

  4. Boa reflexão, Manu. Confesso que me identifiquei com o que você falou e reconheço que as vezes me pego querendo evoluir mais rápido do que o nosso corpo é capaz. Bom poder contar com a sua experiência e com o profissionalismo do Running Club para que seja possível trilhar um caminho seguro, belo e duradouro. Parabéns. beijos =)

    • Com certeza é muito tentador, Daniel. Às vezes me sinto um pouco culpada de escrever as maravilhas das provas longas e com isso influenciar as pessoas a quererem fazer. Quero que todo mundo faça, claro, mas no momento certo. Certamente o Running Club te colocará sempre no caminho certo. Bons treinos e boas provas! Bjos

  5. Show de bola Manu, creio que só faltou um detalhe muito importante…alem de tudo que você falou acrescento ainda a falta de equipamentos obrigatórios. Tenho encontrado muitas pessoas em alta montanha sem lanterna, comidas, corta vento e muitas outras coisas….Parece forte falar isso, mas seu uma pessoa dessa fica perdido…pode até morrer e muitas não tem consciência disso.

    waleuuu

    • Com certeza os obrigatórios são fundamentais. Aliás, é por isso que se chamam equipamentos obrigatórios. As provas lá fora, principalmente as de 160km, exigem uma lista enorme de equipamentos. Numa situação adversa ele pode realmente salvar o atleta de uma situação complicada. Já perdi a conta de quantas vezes já usei a manta térmica nas corridas de aventura. Obrigada por acrescentar!

      Bjs

      • Isso ai Manu…É super importante quando um atleta de ponta como você expresse todos os prós, contras e experiencias, vocês são ícones e a grande maioria seguem seus passos…a responsabilidade é grande…Parabéns..

  6. Uma criança quando começa a andar antes passa por engatinhar para obter confiança e equilíbrio, depois passa-se a dar seu primeiros passos e por assim vai!!!

    A corrida veja da mesma forma, como a Manu foi muito feliz no seu comentário…… eu mesmo cai na minha própria armadilha, olha que nem Ultra foi!!!! costumado a correr meia maratona no asfalto…. partiu para uma de 24km na montanha e noturna…… terminei mas depois fiquei muito mau. Não tinha descansado para a prova, não se alimentou direito, treinos errados, e em tempo inadequado, não respeitei os trajetos ingrimes achando que era tranquilo…… o que aconteceu quebrei…… hoje depois de um ano estou treinando e analisando se posso fazer uma prova dessa……. agora fiquem atentos 50km, 80km e até 160km treinei em todos os aspectos inclusive sua mente o maior desafio que irá enfrentar!

    Show Manu muito bom!!!

  7. Oi Manu!

    Ótimo que tenha levantado o tema. Vindo de alguém com teu background, quem sabe as pessoas deem mais ouvidos,rs. Eu falando parece que não adianta :) Teu histórico de corridas de aventura que fornece essa ‘casca’ toda pra encarar distâncias acima dos 50 km em montanha.

    O que é bem diferente de quem começou no esporte em geral há poucos anos. Como digo, é mais sobre montanhas que sobre corridas.

    Beijo do gordo!

  8. Ótima reflexão! A forma de abordagem e escrita são excelentes!
    Pensamentos e formas de ver o esporte como você faz, te torna uma referência!

    Valeu, Manu!

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