Blog da Manu

X Man, ou XTRI-24

Esse é um post difícil de escrever. Difícil porque foi uma prova muito intensa, muito longa, que mesmo sabendo que seria muito difícil, não tinha idéia de que seria tanto. Eu tentei estimar as horas de prova. Tentei fazer um cálculo baseado em treinos ou outras provas que já tinha feito, somando trechos com a mesma distância. Eu precisava dessa estimativa para saber o que levar, o que comer e inclusive prever a hora em que iria chegar. Mas todas essas estimativas foram erradas. A prova foi muito mais dura do que o previsto.

Eu fui de carona com o Marcio Gripp, sua esposa Mônica e suas filhas Priscila e Tamires  (aliás, mais uma vez muito obrigada por tudo!) até Eastbourne, onde seria a largada. Fomos na quinta feira no final do dia e choveu o tempo todo. Jantamos num restaurante Italiano e fomos dormir. Essa é a noite pré-prova então é muito importante descansar bem, principalmente quando a noite seguinte será toda acordada.

Na sexta feira tive que fazer ajustes finais antes da prova. Não consegui fazer meu GPS funcionar e ainda tive que correr atrás de alguns itens obrigatórios como telefone celular e kit de primeiros socorros.

No briefing fomos informados de que o caminho estava todo marcado. Na verdade nós iríamos pedalar num caminho muito conhecido aqui, que é inclusive uma trilha nacional demarcada, chamada South Down Ways. Existem placas orientando esse caminho e a organização havia reforçado a sinalização em algumas partes mais difíceis. Eu, ainda sim, estava apreensiva com isso. Tinha muito medo de me perder e acabar comprometendo a minha prova. O meu intuito era completar. Eu queria de qualquer forma cruzar a linha de chegada e vim aqui fazer isso acontecer, por isso a última coisa que eu queria era me perder. Cruzei os dedos para que isso não acontecesse.

O tempo havia melhorado um pouco e incrivelmente havia uma janela de sol em cima da área de transição. Depois de organizar tudo eu estava com a minha roupa de borracha Aqua Sphere Phantom, pronta para largar. Ventava muito e fazia muito frio. Eu não conseguia imaginar entrar naquela água gelada. Mas aquele momento ali era que nem montanha russa. Parecia que eu já estava no fim da subida, me preparando para aquela grande descida, com aquele frio na barriga, e não tinha mais como voltar atrás!

Entramos num trenzinho que nos levou para a largada. Estavam os 125 pinguins corajosos dentro das caixinhas, sem saber exatamente o que esperar pela frente.

Chegamos na largada, assistimos uma pequena apresentação de dança local e já estava tudo pronto para começar. O vento soprava forte e a água com a temperatura de 16 graus. Não dava para aquecer pois a prova ia largar em 2 minutos. Eu me molhei apenas para sentir a temperatura e estava realmente frio. Faltando 1 minuto o organizador nos avisou de que havia feito uma mudança. A natação tinha sido reduzida por conta das condições climáticas e nós teríamos que nadar até o pier.

Tudo certo e numa contagem regressiva de 10 segundos foi dada a largada ao XTRI-24! Entramos todos na água e começamos a lutar contras as dificuldades desde ali. O mar estava picado, com ondulação constante. A água muito fria e turva. Eu só pensava em superar aquela primeira etapa e não foi nada fácil. Engoli água algumas vezes. Eu tentava olhar as bóias mas não conseguia. Para respirar era necessário tirar quase que a cabeça toda de dentro d’ água. Estava muito difícil, mas com a grande evolução que tive na natação essa etapa foi vencida de forma muito mais consciente e calma. Não posso deixar de agradecer meu treinador, Grigory, por toda dedicação que ele teve comigo para que eu melhorasse tanto. Obrigada Grigory!

Saí da água no pier e fui correndo para a transição. Era uma corrida de mais ou menos 1km e eu não sentia os pés. De qualquer forma me sentia aliviada por ter superado a primeira etapa da prova. Eu sabia que a etapa que estava por vir seria a mais dura e mais longa. E de fato foi.

Fiz a transição o mais rápido possível e saí rumo aos 160km de mountain bike. No início não chovia, mas depois choveu torrencialmente. As condições ficaram dramáticas. Fico pensando aqui como eu poderia resumir e descrever o que foi. Bom, diria que o terreno era 90% em cima de grama alta e com lama, ou seja, você faz até para descer. É um terreno grudento e pesado. Foi assim o tempo todo. O percurso que não era para ser muito técnico acabou sendo muito técnico. A bike sambava de um lado para o outro o tempo todo e havia uma grande quantidade de lama. Detalhe que tudo isso durante a noite. Sensação térmica de 5 graus. Cenário de guerra.

Tenho que ressaltar aqui a boa escolha que fiz do equipamento. A minha NINER, sem dúvida, melhor opção para essa prova. Cogitei vir de garfo e ainda bem que não vim! Tenho pena de quem veio. Tenho que agradecer a IBS pelo excelente trabalho que fizeram na minha bike, e aliás Edgar, sábia decisão de trocar para 3 coroas. Usei muito o pratinho e praticamente não tive problemas de chainsuck. Obrigada!

Eu comecei me perdendo um pouco. Havia uma mulher na minha frente que pedalava ao lado de um homem. Eles estavam fazendo a prova juntos e me parecia que conheciam bem o percurso, além do GPS que levavam. Eu ultrapassei eles e me perdi. Depois comecei a ver que seria difícil me orientar sozinha.

Foi nesse momento que um homem me ultrapassou numa descida em alta velocidade. Eu  colei nele e percebi que ele poderia ser o meu amuleto da sorte. Ele estava com um GPS.

Durante o percurso nós tínhamos que passar porteiras o tempo todo. Tínhamos que abrir e fechar e ele começou de uma forma não muito amigável, fechando as porteiras na minha cara. Acho que ele não queria companhia. Eu pensei como poderia fazer para ele me aceitasse. Eu estava me sentindo muito forte e pedalava muito bem (aliás, tenho que agradecer aqui os meus companheiros de mountain bike que me ajudam tanto a evoluir nessa modalidade – Vinicius Franco, Larry Martins, Chico Santos, Henrique Versieux-) . Foi aí que comecei a pedalar na frente e abrir as porteiras para ele. Depois disso fizemos amizade e seguimos juntos. Ele me contou que já havia feito o percurso duas vezes.

O percurso da bike tinha 3 checkpoints e eles foram importantes na parte psicológica. Era como se aqueles 160km fossem quebrados em 4 etapas mais curtas. Apesar de não ter descanso entre eles, eles ajudavam a visualizar um trecho mais curto pela frente.

No segundo checkpoint nós encontramos o casal. Eles estavam comendo e morrendo de frio, como todos nós. Eu comi o que vi pela frente porque naquelas condições ficava muito difícil de se alimentar em cima da bike.

Saímos os 4 juntos e fazia muito frio. Já estávamos passando da metade do pedal e isso era animador. Chegamos num ponto onde o casal questionou a direção para onde íamos, dando meia volta e retornando. Eu apenas segui meu amigo, depositando 100% da minha confiança nele. Menos de 1 minuto depois chegamos numa placa que indicava que nós estávamos no caminho certo. Seguimos em frente.

A minha visão começou a ficar um pouco prejudicada. Eu acho que foi a grande quantidade de água, de lama, e meu olho direito ficou muito irritado. Eu comecei a ver tudo branco, como se estivesse dentro de uma nuvem. Se eu tapasse meu olho esquerdo eu não enxergava nada com o direito. Se eu tapasse o direito eu enxergava perfeitamente com o esquerdo. Isso me preocupava um pouco e fiquei um pouco para baixo, mas procurei não focar nisso e busquei pensar em coisas boas e positivas.

Quando cheguei no terceiro checkpoint pedi um colírio, mas ia demorar então não esperei. Eu queria terminar o pedal logo. Já estava claro e a chuva havia dado uma trégua. Dessa forma fomos até o final do pedal, fechando um TREMENDO percurso de 160km de mountain bike, até a catedral de Winchester.

Quando cheguei ali que me deparei com a real situação da prova. Apenas duas pessoas haviam saído para correr, uma pessoa fazia a transição e eu cheguei ali em 4 lugar no geral, empatada com meu amigo. Eu não sabia quem estava na frente, mas sabia que aquela colocação geral na prova era um marco extraordinário!

Minhas coisas estavam imundas. Minha meia pesava uma tonelada. Foi aí que olhei para o meu par de Hayasa limpinho e resolvi correr sem meia. Sábia decisão, pois terminei a prova sem nenhuma bolha! Abri a minha sacola de corrida e avistei um waffle de caramelo que havia deixado ali. Comi uns 2 ou 3 e desceram muito bem! Sábia decisão de deixar minha mochila ENDURO 13 para correr. Além de perfeita para isso ela estava limpinha.

Incrível como tive fome nessa prova. Sempre tenho um pouco de dificuldade de ingerir coisas sólidas e por isso preciso muito do Perpetuem e do Hammer Gel. Dessa vez, além desses 2, comi Hammer bar, jujubas biscoitos, banana ou qualquer coisa mais que colocavam na minha frente. Sempre digo que sentir fome é o meu melhor sinal de estar bem. Essa minha fome de leão mostrava que o meu corpo estava assimilando aquela prova cabulosa da melhor forma possível e eu só botava combustível para manter ele forte.

Saí para correr me sentindo muito bem. Aliás, eu fico muito feliz de ver como evoluí na minha corrida desde que comecei a treinar especificamente para isso com o Iazaldir (obrigada Iaza!). Antigamente eu me arrastaria numa corrida como essas e dessa vez eu corria, corria e corria. Uma sensação maravilhosa!

O detalhe apenas é que saí para correr 20 milhas, distância especificada pela organização no último race book. Fiz uma ultrapassagem por volta do quilometro 15 onde descia por uma trilha num “pace” muito bom. Quando cheguei na milha 20 me informaram que eu tinha mais 8 milhas pela frente. Isso foi uma ducha de água fria! Nesse momento eu corria sozinha e ocupava a 3 posição geral e 1 feminino. Era um enorme estímulo, mas 8 milhas ainda?? E nem eram 8km, eram 8 milhas! Meu companheiro na bike estava um pouco afrente e havia se perdido. Logo em seguida ele apareceu e nós fomos juntos. Ele me confirmou a distância da corrida: 28 milhas, ou seja, 44.8km.

Foi importante estar junto nesse momento final pois um ia dando força ao outro. Eu começava a me sentir bem cansada mas seguia fazendo força para continuar correndo. Quando a trilha ficava muito complicada de correr a gente caminhava um pouco, mas logo em seguida voltava. Assim fomos até avistar o morro, Old Sarum, onde estava a tão almejada linha de chegada.

Ao avistar as bandeiras uma sensação indescritível. Uma prova muito dura, muito suada. Uma guerra de verdade, onde gigantes eram pequenos e pequenos eram gigantes. Uma prova que exige muito mais que preparo físico e mental. Uma prova que exige coração, pois só com o coração podemos superar uma condição tão extrema. E o que posso dizer é que o meu coração foi gigante. Ele esteve o tempo todo positivo, fazendo com que o meu corpo e a minha mente seguissem em frente fazendo muito força para que aquele momento fosse alcançado. São momentos que temos vontade de eternizar, pois são breves momentos mágicos, que apesar de não serem a razão pelo qual fazemos tudo isso, são doces e deliciosos de viver.

Eu queria agradecer a todos que me ajudaram a chegar aqui e que fizeram tudo isso possível. Agradeço meus patrocinadores e apoios, que sem o equipamento e alimentação adequada isso não é possível. Agradeço minha família, meu namorado, meus amigos, meus treinadores, fisioterapeuta e todas as pessoas que depositam uma energia positiva ao longo desse processo. Estou feliz demais!

*Assim que conseguir fotos da prova atualizo o post!

6 comentários para “X Man, ou XTRI-24

    • Hi Di!

      Where are you girl? Thank you so much for your words. It makes me happy to know I’m an inspiration for other people. I bet you’re challenging yourself somewhere in the globe! If you show up in Rio let me know. Beijos!

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