Blog da Manu

UTMB 2015

Eu me preparei para isso. Na véspera tinha a sensação de que iria ao colégio fazer uma prova para qual havia muito estudado. Estava confiante.

As pessoas tentam te arrancar expectativas, mesmo quando você não as quer criar. Sempre digo que minha meta é cruzar a chegada, e isso nunca muda para mim, independente do quanto eu progrida no esporte. Digo isso não porque quero bancar a humilde, mas porque estou cansada de ver muitos corredores tops se retirando e porque eu, mera mortal, estaria acima disso? O problema é que as pessoas querem saber quanto tempo você vai fazer e em que lugar você vai chegar. Como é que eu vou saber?
Enfrentei muitas dificuldades, mas imagino que todo mundo tenha enfrentado as suas. É totalmente normal nesse tipo de prova, pois são muitos quilômetros. Vi quando a Núria estava cambaleando e eu partilhava da mesma sensação, mas ainda tentava animá-la pois eu realmente achava que ela seria a campeã. Ver uma corredora no nível da Núria numa condição como esta nos mostra que todos nós temos nossos dias ruins e ninguém está acima disso. E essas foram as palavras dela explicando a sua desistência na prova, sem mais nem menos. “Não era o meu dia.” Eu sabia que também não era o meu mas tinha certeza de que reverteria o jogo a ponto de ser capaz de cruzar a linha de chegada. Lutei para me sentir melhor, comendo, bebendo, mas eu nunca me senti tão fraca. Simplesmente não sabia o que estava acontecendo. Cheguei a achar que não iria conseguir, pois a demora em me recuperar me assustava. Talvez a vento gelado da montanha e a luz da lua cheia tenha me trazido agradáveis sensações, que se tornaram a minha salvação. Comecei a sentir prazer e felicidade, características essas que eu julgo serem essenciais numa prova tão longa.
A parte acrescentada ao percurso era muito técnica, mas proporcionalmente linda. Até a lanterna eu apaguei. Todo aquele cenário impressionante e até então invisível, se iluminou com a lua cheia. A paz e o silêncio voltaram a reinar. Quando isso acontecerá de novo? Talvez nunca. Esse foi o meu grande presente no UTMB 2015, pois todo aquele cenário impressionante, até então escondido debaixo da escuridão, estava aceso para a minha contemplação. De ali em diante cresci muito. Passava muitos corredores e percebia o quanto havia me recuperado, o que me deixava confiante de que iria terminar.
O dia amanheceu e fomos regados de luz, e calor, muito calor. O Gran Col Ferret foi uma subida escaldante e todo mundo cambaleava. Eu via as pessoas sentadas, enjoadas. Me deparava com corpos estirados no chão. O que estava acontecendo? Difícil descrever o silêncio daquele dia. A natureza falava alto e nós nos movimentávamos sem falar nada. Eu apenas me preocupava em progredir e admirar tudo que estava a minha volta.
Consegui crecer até Champex Lac, mas o calor era insuportável. Cada passo para frente era um a menos em direção à chegada e eu fixava nesse mantra. A subida do Bovine mudou. O que era difícil ficou ainda mais pois era uma subida de pedras, muitas pedras, formando uma escadaria, e eu duelava para dobrar a minha perna direita. Eu me defendia a medida que podia, até que na descida do Catogne, penúltima montanha, tropecei e tomei um tombo horrível, de cara no chão. Eu respirava forte, deitada e assustada, e o corredor a minha frente voltou e me ajudou a me erguer novamente. De ali em diante eu caminhei até o abastecimento, um pouco aérea, e quando cheguei ali quis sair logo. Minha cabeça estava focada na linha de chegada e eu não queria perder mais tempo para finalizar a prova.
Saí para o último trecho muito ciente do que iria enfrentar, mas embora eu soubesse o tamanho da dificuldade e da dor, a minha vontade de chegar era maior que tudo. A última montanha parecia interminável. Eu não conseguia flexionar a perna direita e usava os braços para subir, fazendo muita força. Acho que subi com os braços. Me defendia da forma que podia, tentando progredir o mais rápido possível. Infelizmente depois de tantos quilômetros e naquelas condições, o rápido não pode nem ser chamado de rápido. A luz da lua surgia forte atrás do maciço do Mont Blanc, visão esta que guardo no coração. A noite estava quente. Eu via as luzes de Chamonix ao fundo mas sabia que ainda estava longe do arco de chegada.
Meus amigos Yvonne e Zuli estavam lá no alto com um cartaz onde se lia: Vai Manu! Isso me emocionou demais e eles me deram um forte abraço quando passei. Eu enfrentava uma dor insuportável e quase não conseguia falar direito. Respondia baixinho quando as pessoas me animavam, “merci.” Era tudo que eu conseguia falar.
Segui solitária pela noite, driblando meus pensamentos da forma que podia, até que vi a primeira luz que indicava de que eu havia chegado a Chamonix. Eu estava a 1km da linha de chegada. Logo depois desse momento de euforia, um banho de água fria. Duas luzes que surgiram da escuridão eram da Stephanie Howe e Melanie Rousset, num sprint final, rumo ao arco de chegada. Depois de lutar tanto, perdi duas posições a muito pouco de fechar a prova. A verdade é que eu não tinha a menor condição de sprintar, por isso não fiquei sofrendo e remoendo essa ultrapassagem. Correr já era muito para quem não tinha condições nem de caminhar. Já extraía tudo que existia dentro de mim. Eu era um grande coração, cheio de corações, que corriam comigo, e que me empurraram a completar esse grande desafio. Assim cruzei o arco de chegada, com um sorriso no rosto e a eterna satisfação de quem havia acabado de conseguir superar todas as dificuldades a quais a vida havia lhe imposto.
Muitas pessoas vieram me falar, “e se…”. A verdade é que o SE não existe. A única coisa que existe é o É. Não adianta ficar supondo o SE, pois cada um teria o seu SE e nada seria da forma como imaginamos. Uma das grandes lições que aprendi na minha vida é que eu devo viver o momento presente, o agora, o ser. No momento em que fui ultrapassada eu tive uma decepção, mas entendi e aceitei essa realidade. Eu realmente não tinha condição de ir junto naquele sprint. Estou feliz com o meu 10 lugar no UTMB 2015, as lindas imagens, a superação e o desafio de melhorar no ano que vem.
Muito obrigada pela força, todos envolvidos nessa aventura e que me apoiam e torcem por mim. Isso é meu motor e tenham a certeza de que fizeram parte dessa jornada comigo. Muito obrigada aos que acompanharam de longe e um obrigada especial aos que estavam ali do meu lado fisicamente, minha amiga Kaki, meu apoio Dave, meu primo Salvi, os amigos Yvonne, Zuli, Izzibella e Genis. Serei eternamente grata!

22 comentários para “UTMB 2015

  1. Manu, vocês são mega heróis, imaginar uma viagem como esta durante 30horas, contando com o alimento das belezas naturais, olhando para si e buscando entender a presença de Deus a cada segundo, é quase assistir um
    Milagre, uma superação ao vivo e a cores.. Humildemente passo aqui para lhe desejar os parabéns, a todos que treinaram muito, o preparo para chegar em uma prova como esta e ainda assim no dia, contar com a luz divina de acordar bem, com muita energia para cumprir a meta (mas só cada um de vocês é que sabe o quanto o corpo está sem querer .. Estafado.. É na hora H que vem esta descoberta e nesse instante surge o leão, a fênix interna .. Só está força e coragem para nunca desistir e cruzar o arco … Quando leio você comentar que faltava 1km… Hahahha.. Depois de 170km percorridos entre subidas, descidas, pedras, altitudes, vento, frio, calor, cansaço .. Zero conforto… Só uma força desconhecida dentro de cada um.. Para chegar nesse famoso arco.. Claro, neste instante o detalhe crucial que impulsionam vocês a chegarem, são os milhares de corações vibrando, pulsando por cada passinho, até que cruzem a linha e nesse instante é uma emoção tão forte e inexplicável que imediato não nos damos conta da loucura que essas 30horas representam… Orgulhosamente, admirável lhe desejo parabéns!! Muito muito guerreira mesmo!!

  2. Que relato repleto de emoção!
    Completar uma prova dessa magnitude – seja em 1º, 10º ou 1568º lugar – é uma conquista colossal. A imensa lista de DNF’s desse ano está aí para provar o quão difícil foi a prova e o quanto cada um teve de batalhar intimamente para se motivar e seguir em frente. Parabéns!

  3. Caracas Manu.
    Muitos das coisas que venho pensando em minha cabeça e contando aos meus amigos você descreve.
    Esta questão do pessoal estirado no chão no percurso. Aquele mar de pedras na parte nova. A lua fenomenal. As subidas de degraus assustadores.
    Ah, só quem correu aqueles 170 km que sabem disto tudo.
    Parabéns pelo excelente desempenho na prova.
    Você foi D+++.
    Um grande beijo.

  4. Puxa, meus parabéns…me emocionei com cada palavra em seu relato…estive lá e fui cortada no km 80 fiz uma cirurgia no ligamento cruzado tem sete meses e esperei três anos…tentando ser sorteada e qdo pude ir não estava nem perto de estar nos meus 100$%…mas adorei cada km dessa linda e dura corrida tb sofri muito com dor no joelho…mas sofri mais ainda qdo fui cortada vi meu sonho se afastando…mas irei voltar e completar e só isso que desejo…parabéns vc fez um tempo incrível!!! Abraços

  5. Manu! Não tinha lido esse relato… Me arrepiei, me emocionei, e como sempre pude imaginar e tentar sentir um pouquinho o que você passou nesse UTMB. Que sua cabeça e as incríveis sensações que vc pode ter durante uma prova como essa sempre te levem até a linha de chegada, não importando a colocação e nem o tempo. Você é e sempre será ídola, admirada por todos nós! #fanumero1! Parabéns, parabéns, parabéns! :D

  6. Parabéns !! Estive em Chamonix e conclui a TDS 2015 ler seu relato para mim foi muito legal pois trouxe a tona todas lembranças da prova, compartilho contigo toda emoção e dureza que foi Chamonix este ano ,pretendo voltar para lá em 2017 para UTMB .Devo fazer 170 k da Ultra Fiord 2016 para obter os pontos que me faltam, li seu relato sobre a prova e me ajudou muito ,sei agora que vai ser um desafio duro também sem esquecer de lhe parabenizar pela vitória na prova .

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