Blog da Manu

Uma experiência diferente

Voltei dos 80km do Chile e tive uma semana de treino livre, onde pude combinar o descanso com treinos de bike. Eu fico super feliz quando posso pedalar pois esse é um esporte que eu adoro fazer. Por sorte e coincidência tive a oportunidade de me aventurar numa prova muito diferente de todas que eu já havia feito: uma prova de enduro.

A Serra All Mountain Series aconteceu em Itaipava, serra do Rio de Janeiro, e o local exato foi divulgado na véspera: Vale da Lua, ou Pinheirinho, como muitas pessoas conhecem. Quando soube do local já vibrei de felicidade, pois é simplesmente maravilhoso pedalar naquelas trilhas. Eu já havia treinado lá algumas vezes, mas há muito tempo não ia. Também nunca havia pedalado de All Mountain por ali e o que posso dizer é que foi MUITO diferente. Ontem eu pude colocar a minha Intense 6.6 para trabalhar.

A prova de enduro é uma prova que mistura um pouco do mountain bike XC com o downhill. É uma prova onde as subidas são neutralizadas e as descidas cronometradas, mas em casa seção de descida pegamos alguns trechos de subidas que conectam as trilhas. No caso do Serra All Mountain Series foram três estágios partindo os três do topo do Pinheirinho. A largada acontece de um em um, com 30 segundos de diferença entre cada competidor. Ontem o meu numeral foi 01, ou seja, eu fui a primeira a largar.

Às 7:00 da manhã de domingo a subida foi liberada e começamos a pedalar em direção a largada. Ao chegar no topo eu ainda tinha mais de meia hora para a minha largada, que estava marcada para 8:01. Começamos a olhar para onde a prova largava e aí já veio a primeira surpresa: uma descida cabulosa! Eu nunca havia descido por ali e vi que a maioria dos competidores também não. A categoria feminina só contava com duas inscritas, sendo uma delas eu e a outra a Beatriz Ferragi, atleta de downhill.

Nós podíamos optar por capacete full face (fechado) ou não, mas como eu havia levado o meu não quis abrir mão de usar. Não custava nada e se alguma coisa acontecesse eu não iria me perdoar. Subi na bicicleta quando a contagem regressiva estava em um minuto e todo mundo se posicionou em volta para ver a minha largada. O meu coração estava batendo a milhão. Era uma adrenalina que nem sei descrever, pois não sabia se ia conseguir zerar (fazer a descida inteira em cima da bike) ou se iria cair e ainda por cima não tinha a mínima idéia do que vinha pela frente. Era uma mistura de medo e de vontade, uma sensação muito doida.

Eu já estava com os dois pés clipados no pedal e me segurava com o braço esquerdo numa árvore, até que o Jony sinalizou: três, dois, um…. VAI MANU! Botei as duas mãos no guidon, abaixei o tronco, joguei o corpo para trás e comecei a descer.

Esse primeiro trecho tinha cascalho e areia solta e a trilha não estava muito bem definida. Eu vim escorregando lá de cima e a linha que escolhi fazer eu não consegui manter. Achei que fosse cair mas a bike passava todos os obstáculos e eu segurava firme no guidon.

Consegui evitar duas ou três quedas e cheguei no final da descida. Isso foi uma glória, então pesei as marchas pedalando muito forte no trecho plano e levemente subindo que conectava com a segunda descida. Era um trecho de alta velocidade e muita diversão. Entrei no primeiro trecho de zigue-zague entre os pinheiros. As curvas eram fechadas e eu controlava bem os freios para fazer a melhor linha que podia. O segundo trecho de zigue-zague era indescritível. O terreno macio e as curvas fechadas entre uma linda floresta de pinheiros tornava tudo aquilo muito mágico. Mais um trecho curto de subida conectando a última descida, bastante técnica. Eu não conhecia essa parte e, além das curvas serem bem fechadas, eram repletas de raízes. Cheguei numa parte onde dois troncos atravessavam a trilha. Passei o primeiro e já tomei um “coice” sendo projetava para frente. Inevitavelmente tive que encarar o segundo já bastante desequilibrada e caí. Levantei o mais rápido que pude, subi na bike e segui. Cada centésimo contava e eu tinha isso muito claro em mente. Mais um pedaço de trilha com muitas raízes e um último drop, onde avistei a barraca da Red Bull e o final daquela seção.

Cheguei eufórica! Era uma sensação muito boa e eu estava muito feliz, um por ter conseguido fazer a primeira seção muito melhor que esperava e dois por não ter caído naquela primeira descida. Meu dia estava ganho e eu estava quicando, sem conseguir parar de falar e vibrar. Fiquei conversando com os organizadores e contando o quanto eu havia me divertido. Eu sabia que havia descido muito bem e isso me deixava ainda mais alegre. A parte mais bacana é que todos os competidores chegavam ali vibrando, eufóricos. Cada um contava como tinha sido sua descida, seus tombos ou ultrapassagens. A prova vira uma troca muito boa de energia e experiências.

Ficamos ali até a subida do segundo estágio ser liberado, e mais uma vez fomos nós até o topo. Chegamos com tempo então era mais um momento para conversar, trocar idéias e ficar especulando a próxima seção da prova.  Eu sempre era a primeira a largar e, por mais que o “gelo” inicial houvesse sido quebrado, eu ainda sim ficava nervosa com a contagem regressiva do cronômetro.

Ao ser liberada, clipei o pé rapidamente e comecei a acelerar para a segunda descida. O primeiro trecho era de altíssima velocidade e eu tentava ser o mais eficiente possível.

Na conexão com o segundo trecho dei uma hesitada no caminho, mas rapidamente me dei conta da direção. Os reflexos têm que ser muito rápidos e é necessário ter muita atenção em 100% do tempo. Fiz o segundo trecho de descida, também muito divertido e com muitas curvinhas.

Chegando no final desse vinha uma forte quebrada à esquerda e uma subida um pouco mais puxada que as da primeira seção. Fui fazendo bastante força e escutava minha respiração muito forte. É engraçado porque o coração acelera muito por conta da adrenalina e junta com o esforço físico. A subida não terminou onde parecia e era necessário subir um trecho ainda mais íngreme para a esquerda antes de começar a descer de novo. Nessa hora é fácil notar o peso da bike e a suspensão traseira trabalhando contra. Chegando no final eu respirava muito forte mas já virava para a direita, trocando as marchas e retomando a descida. Ela entrava num trecho super rápido de areião, que cruzava a estrada da subida para uma outra trilha divertida e curta, até entrar na estrada novamente e já avistar a chegada. Nesse trecho era possível sprintar para a chegada pois ela ficava visível um pouco mais de longe.

Essa seção foi mais curta, mas também foi muito divertida. Dessa vez a Beatriz chegou com uma diferença menor e com isso diminuía o tempo entre nós duas, o que deixava uma adrenalina ainda maior para a seção final.

Depois da chegada do último competidor, mais um intervalo e iniciamos mais uma vez o trecho neutralizado de subida, para a última parte da prova. Ao chegar lá em cima já era possível notar o cansaço de todos, mas os ânimos continuavam iguais. Fizemos a primeira descida para a direita, a segunda para o meio e faltava a terceira, da esquerda. Eu não sabia como seria mas tinha certeza de que iria me divertir muito.

Mais uma vez a contagem regressiva e lá fui eu, acelerando para a última parte. Não consegui clipar o pé com a mesma velocidade da descida anterior, mas assim que senti o pé fixo comecei a pedalar forte. No final desse trecho, uma quebrada para a direita e a primeira subida, não tão inclinada, que já conectava em outro trecho de alta velocidade. Acelerei tudo que podia e quebrei à esquerda, sinalizada pela galera que acompanhava e torcia. Mais um trecho plano, levemente inclinado, até que fui sinalizada a dropar para a direita, num trecho inclinado e com muitas folhas secas. Quando estava quase no final escorreguei e tomei um pequeno tombo, mas tratei de subir na bike o mais rápido possível e continuar. Segui acelerando pela estrada e entrei mais uma vez numa trilha mais fechada e travada. Uma conectava na outra e um cotovelo fechado para a direita também me fez perder alguns segundinhos, pois me pegou de surpresa. Mais um pequeno drop e eu já estava na estrada principal e só faltava descer por ali. Pesei as marchas mais uma vez e voltei a pedalar forte, buscando a linha da direita e evitando as valas. Dessa vez era necessário descer até o final e havia um bom trecho de alta velocidade. Acelerei o máximo que pude, sabendo que isso faria muita diferença no final.

Cruzei a linha de chegada eufórica e muito feliz com me desempenho na prova. Apesar de ter caído na última descida eu havia me divertido muitíssimo e me superando em vários sentidos. Foi uma experiência tão bacana que já estava com vontade de repetir. Eu não sabia qual havia sido o resultado em termos de tempo e colocação, mas independente disso eu estava muito feliz e satisfeita.

Às 15:00 foi feita a premiação na loja Avancini Bikes e tive enrome felicidade ao ser anunciada na primeira colocação. A primeira descida foi onde consegui fazer a maior diferença e, apesar da Bia ter diminuído na segunda e terceira seção, ainda sim consegui fechar com um tempo total inferior ao dela. Comemorei a minha primeira prova de enduro como um grande feito e muita superação.

Gostaria de parabenizar todos os competidores pela garra e energia, assim como a organização por ter feito um evento tão TOP e bacana como esse. Foi uma experiência diferente e sensacional. Certamente não esquecerei.

Fotos: Matheus Botelho, Rogério Smith e Jony Anderson

8 comentários para “Uma experiência diferente

  1. Manuuuuuuuuuuuu! Fiquei com frio na barriga, juro! Não consigo nem imaginar o que possa ser uma prova dessas! Mas seu relato deu uma bela idéia! Comentei com o Má sobre essa prova, e ele: “a Manu é demais né? Uma doida!” Simm, é DEMAIS mesmo! ;) Somos fãs, vc sabe! E estaremos sempre com você! Beijãoooo!

  2. Manu, primeiro quero dar parabéns por sua belíssima carreira! Você não lembra de mim, mas sou sua prima que mora em Paraíba do Sul, que você vinha, quando pequena com o Jaime e Lulu passar o dia. Gostaria muito de ter mais contato com você!Gostaria muito de bater um papo com você. Como faço? Posso? Beijos linda, Isabela

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