Blog da Manu

Uma boa mistura

Faz tempo que não consigo parar com calma para escrever. Quis relatar a viagem, como tenho feito nas outras, mas a dificuldade para conseguir internet acaba muitas vezes desmotivando e tirando a minha vontade. Também tem tanta coisa que envolve uma prova que muitas vezes acabamos ficando sem cabeça para sentar e escrever algo bacana.

Me prometi que não escreveria qualquer besteira. Não quero cair na armadilha do “escrever por escrever” e acabar caindo no blá blá blá do dia a dia. Ao mesmo tempo sinto que acumulei tantos pensamentos, sentimentos, emoções e agora tenho a árdua missão de botar tudo para fora, de forma coerente e eficiente (ou pelo menos tentar).

Talvez eu esteja juntando uma viagem, com um livro, com alguns sonhos e alguns sentimentos e confesso que não sei muito bem por onde começar. Talvez seja melhor começar pelo fim. Vou ao vôo de volta, de Veneza para Frankfurt. Vou ao final do livro do Murakami (Do que eu falo quando falo de corrida), quando ele termina a Maratona de NYC, acima do tempo esperado e lutando contra as dificuldades que todos nós corredores encontramos:

“Mas na vida real as coisas não funcionam assim tão tranquilamente. Em determinados pontos de nossas vidas, quando precisamos de uma solução elegante, a pessoa que bate na porta é, com muito mais frequência, portadora de más notícias. Nem sempre é o caso, mas por experiência eu diria que, as notícias ruins superam de longe as de outro tipo. O mensageiro leva as mãos ao boné e nos olha meio constrangido, mas isso não melhora em nada o conteúdo da mensagem. Não é culpa do mensageiro. Não adianta apontar para ele, não adianta agarrá-lo pelo colarinho e sacudi-lo. O mensageiro está apenas fazendo o trabalho que seu chefe designou para ele. E o chefe? Ninguém mais, ninguém menos, que a nossa velha amiga Realidade.”

Vamos agora para Cortina D’Ampezzo, uma linda cidade na Itália, aos pés das imponentes e impressionantes Dolomitas. Sempre que eu chego perto de alguma montanha eu fico impressionada. Sempre acho que a atual é mais bonita que a anterior. Na verdade não acho que seja isso, até porque cada lugar tem sua particularidade e sua beleza. Acho que isso se deve ao simples fato de que eu esqueço como uma montanha é de verdade.

O Rio de Janeiro é um lugar lindo. Apesar de todos os problemas do país (que eu nem quero aprofundar para não deprimir), tenho que admitir que o Rio é uma cidade linda, lugar maravilhoso para morar. Temos praias, lagoa, floresta, morro…. MORRO. Temos morros, mas e as montanhas? Toda vez que viajo para fora e me deparo com uma montanha eu fico de queixo caído. Me sinto uma formiga e fico impressionada ao olhar para cima. Nas Dolomitas não foi diferente.

Existe vida ali. Em pleno verão tivemos temperaturas baixíssimas e 40cm de neve na noite anterior à largada. Não existia outra saída aos organizadores a não ser adiar o início e diminuir o percurso. Tristeza no rosto dos corredores assim como no dos organizadores. O “dono” da prova emocionou a platéia ao chorar por ter sido obrigado a tomar essa decisão. No caso entendemos, já que a saúde e segurança vem em primeiro lugar.

Um pouco de frustração com a notícia, mas havíamos ganhado tempo. Que coisa estranha essa do ser humano de querer sofrer! Talvez seja a forma de se sentir mais vivo e mais pleno. O sentimento de estar despido em frente ao espelho – que eu já mencionei aqui quando corri o Endurance Challenge no Chile – e que li agora no livro do Murakami, descrito da mesma forma que eu havia relatado. Que coisa engraçada, mas acho que nós corredores compartilhamos as mesmas sensações e sentimentos.

Tive que mexer na minha mochila, pois correria 33km a menos. Até a roupa de prova mudou. Tudo mudou porque o tempo de prova tinha sido reduzido à quase metade do previsto. Não que isso diminuísse a dificuldade, mas…

O dia amanheceu lindo. Que ironia! Como poderia o cenário modificar assim de um dia para o outro? Enfim, é a montanha, sempre imprevisível.

Alinhamos perto das 8:00, quando foi dada a largada, já numa estrada que subia. Com pouco tempo de prova já começávamos a ganhar muitos metros de altitude. Muitos corredores ao redor, gente muito forte! É um cenário onde me sinto muito pequena. Todos correm, ninguém anda. O ritmo é forte. A respiração 100% e o coração na boca, mas tudo isso compensa quando chegamos lá em cima. As montanhas surgem pontudas como se tivessem brotado do chão. A rocha marrom carregada de neve tem um contraste tão forte. Tudo aquilo parecia uma cenário de tão impressionante. Eu realmente não acreditava no que via.

A primeira descida foi incrível. Um single track maravilhoso, porém técnico. Eu sentia as baforadas dos corredores no meu cangote, que vinham em pelotão, embora eu estivesse dando tudo da minha capacidade. Impressionante a técnica deles. Sempre que vejo admiro e me motivo a me empenhar cada vez mais.

Tive dores fortes no estômago. Parece que isso é normal em provas desse tipo, segundo a Fernandinha (Maciel, corredora muito forte e experiente) nos explicou. Não quero que isso pareça desculpa para nada, mas isso realmente dificulta a nossa ingestão de sólidos e líquidos, que é tão importante numa competição como essa. De qualquer forma isso não me impediu de correr e ir até o final, então prefiro ficar com as memórias boas.

Corremos por lindas montanhas, cruzamos rios, atravessamos vales e inclusive trechos com neve. Foi tudo muito lindo e muito impressionante. Eu pensava nas pessoas que me ajudaram a chegar ali, nas inúmeras mensagens de boa sorte que recebi e em toda aquela energia boa que nos bota para frente. Isso é essencial numa ultramaratona e eu procuro sempre me agarrar nesses sentimentos.

A disputa se manteve quase que a prova toda. Larguei entre as primeiras, e as posições que perdi até o final do primeiro single track, quase não consegui recuperar. Consegui passar duas meninas no final da última subida, e uma delas me passou de volta mas a outra não. Consegui finalizar em sétimo lugar, entre setenta e nove mulheres, guerreiras, que largaram para essa disputa.

O que posso dizer é corri, vivi e cresci. Eu digo que cada prova que fazemos adquirimos maturidade. Algumas amadurecemos mais que outras, principalmente quando levamos em consideração as dificuldades que enfrentamos. Quanto maior o nível de dificuldade, mais engrandecemos. Quanto maior o sofrimento, maior a conquista. E quando o mensageiro bate na porta, sabemos que temos que encarar a realidade. Por mais que as notícias não sejam as melhores, se elas superam as outras, é porque de alguma forma saímos mais fortes.

Mais uma vez não posso deixar de agradecer mais uma vez a força de todos. Não tenho dúvidas de que me ajudam muito. Obrigada do fundo do coração. Um agradecimento especial à Vânia, que me deu o livro.

18 comentários para “Uma boa mistura

  1. Fantástico! Parabéns por mais essa conquista. Desafiar nossos limites já é por si só uma grande motivação sempre, agora, em meio a esse esplendor da natureza, tudo se torna mais maravilhoso.

    Acessei seu blog pela primeira vez essa semana e já revirei ele de cabo a rabo lendo suas histórias. Muito motivante tudo isso. Parabéns por toda essa determinação. Sigo motivado e sonhando sempre com maiores desafios a medida em que evoluo nos meus treinos. Enquanto esses sonhos se mantiverem dentro de nós, corredores, ciclistas, atletas em geral, todo esforço sempre valerá a pena. Um abraço, Daniel

  2. Parabens Manu, voc~e foi muito feliz nas suas palavras e que mais uma vez servem de incentivo para todos nós que amamos a corrida e principalmente as trilhas. Pau no Cat!!!

  3. Como AMO seus depoimentos Manu! Você é um exemplo de atleta! Tenha a certeza que você nos transmite toda a emoção que você mesma sente ao realizar uma prova como essa. Você se supera a cada dia. Sou fã número 1, não me canso de dizer! Parabéns por mais essa conquista!!!!

  4. Parabens por mais uma Manu. Que lugar lindo.
    No domingo, vai ser a minha estreia na Maratona do Rio. Fico lendo esses textos de provas longas e imaginando o que poderá acontecer após os 30kms. Vamos ver, trabalho a mente não para ser otimista e nem pessimista, mas para estar pronto para interpretar os fatos.
    Valeu !!!!

    • Wow, que legal, André! Vai com tudo e nunca esqueça de se divertir a aproveitar esse momento. Tenho certeza de que você se sairá muito bem. Mantenha o foco na linha de chegada e não deixe de acreditar em você!

  5. Maravilha!!! acabei de jogar na megasena, quem sabe ganhando na loteria eu consigo fazer essas provas! :)

    Mas sério, viver em metrópole já me cansou demais, o barulho, o trânsito, o caos, acho que estou com princípios de pânico inclusive. Venho pensando constantemente em ir para alguma cidade do interior e de preferência com as maiores montanhas do Br… sumir do mapa igual o Micah True rsrs!!
    Essa sensação que vc descreveu quando viu a montanha enorme eu sei como é, não tem como descrever tamanha emoção!!

    • Oi Natan

      A vida nas cidades grandes realmente é difícil. Acho que acabamos sendo “sugados” pelo caos e acabamos nem percebendo que estamos nesse turbilhão. Toda vez que vou para uma prova eu tenho uma sensação tão boa de paz. Espero ter a oportunidade de viver muitos momentos assim!

  6. Manu,

    Parabéns pela prova. Parabéns pela prova. Mesmo que o resultado não tenha sido esperado, mesmo que a realidade tenha se apresentado de outra forma, mesmo com os imprevistos, as dores, as dificuldades de cada (e toda) prova.

    Parabéns não apenas pelo 7º lugar, mas especialmente por conseguir tirar lições e por crescer como corredora a cada prova.

    E que lindas as fotos e as paisagens.

    Abraços.
    Brunno – http://movidoaendorfina.wordpress.com

    • Oi Bruno

      Com certeza a grande superação vem em cima das dificuldades que enfrentamos. Acredito que isso seja uma lição para a vida toda. Eu fiquei feliz com o 7 lugar na prova, porque para mim é uma vitória cruzar a linha de chegada, independente da colocação. As provas de corrida em montanha são muito imprevisíveis e nos testam o tempo todo. Tenho aprendido muito a cada linha de chegada e espero continuar tirando lições valiosas para dividir com vocês.

      Obrigada por acompanhar :)

      Abraços

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