Blog da Manu

Um dia perfeito

Fui dormir cedo. Minhas coisas para a prova estavam prontas, assim como uma pequena duffel cheia de roupas de frio, meias extras, comida e tudo que eu poderia precisar. Eu estava psicologicamente preparada para a pior condição que poderia encontrar, e isso não me agradava nem um pouco. Fazia muito frio dentro do quarto. Eu não parava de imaginar como seria uma corrida de 80k na chuva com temperaturas baixíssimas.

O despertador tocou às 3:00 e eu pulei fora da cama rapidamente. Eu tinha que sair do hotel às 3:25 para dar tempo de caminhar até o ônibus que levaria os corredores à largada. Botei a roupa de prova e muitas roupas de frio por cima, comi uma banana, tomei um copo de café, peguei minhas coisas e saí do quarto. Não estava chovendo. Olhei para o céu e aí veio a surpresa: estrelas, muitas estrelas. Me enchi de felicidade.

Ao caminhar para o ônibus eu não parava de olhar para cima. Para todos os lados eu só via estrelas. Fazia muito frio, mas o simples fato de não estar chovendo já mudava tudo. Eu já estava com o dia ganho.

Ao chegar no local da largada, uma enorme estrutura já estava montada. Os corredores chegavam aos poucos e iam se aglomerando em volta de fogueiras e aquecedores. Eu encontrei um aquecedor que parecia um canhão e ficava dentro de uma tenda com diversas comidas deliciosas. Fiquei ali mesmo e decidi que ia sair apenas na hora de alinhar. A estrutura do The North Face Endurance Challenge é realmente impressionante.

O relógio marcava a hora local e estávamos quase a ponto de largar. Fui caminhando para o pórtico e só tirei a calça e o casaco de frio quando estávamos apenas 5 minutos de começar. Eu estava inscrita para largar com a elite e essa parte foi realmente muito especial. Eu olhava para os lados e via todos aqueles corredores que vemos apenas pela internet, acompanhando seus resultados. Eu estava no meio de um grupo que consistia em sua grande parte os melhores corredores do planeta e não tinha como eu não ficar muito feliz com isso. Na contagem regressiva de 10 segundos largamos rumo aos 80k de São Francisco.

Fazia muito frio e eu sentia as pernas geladas. Eu ainda dava aquela conferida no céu e ao ver as estrelas me certificava de que o tempo ficaria firme. Começamos correndo num estradão de terra e a energia era muito boa. Eu via inúmeras luzes para todos os lados e podia ter a real dimensão do evento.

Eu estava feliz e tranquila. Sabia que no meio de tantos corredores de ponta eu não tinha a menor chance, por isso a minha briga era comigo mesma. Eu queria fazer o meu melhor tempo numa prova de 80k. Eu me sentia muito bem e estava confiante de que iria conseguir. Eu chutava algo em torno de nove horas, mas meu treinador, Iazaldir, disse que eu iria fazer menos. Isso me animou.

Ao longo dessa jornada de 80K muitos pensamentos vieram à minha cabeça. Eu pensava no ano como um todo. Pensava em tudo que havia feito e me comparava ao final da temporada do ano passado. Lembro que cheguei exausta, sem vontade de correr, com a mente estafada de tantas provas e treinos. Esse ano foi totalmente o inverso e eu me sentia abençoada de chegar na minha última prova do ano com tanta vontade, ânimo e disposição. Eu pensava no quanto havia evoluído em um ano e isso me deixava feliz.

Enquanto isso o cenário ia mudando gradualmente. A noite caía e o dia começava a aparecer. O céu escuro mudava para tons azulados e aos poucos avermelhados e rosados.

As estrelas ainda eram visíveis e num momento onde eu admirava o céu vi uma estrela cadente enorme e fiz um pedido. Tudo aquilo parecia de mentira. Os single tracks beiravam falésias onde o mar aparecia distante debaixo, refletindo os tons da manhã. Eu esperava uma prova bonita, mas confesso que foi muito mais que isso.

Todos os elementos contribuíam com a minha vontade de correr. Eu corria e corria e nem pensava em andar, mesmo que a subida fosse íngreme. Eu apenas diminuía o ritmo e seguia.

Em certo momento fizemos um “bate-volta” numa trilha de 3 milhas.

Nesse ponto pude ver todos os corredores que estavam a minha frente. Foi muito legal. Nos cumprimentávamos com um “good job” e seguíamos. Vi os líderes do pelotão masculino e a disputa pela ponta no feminino. Michele Yates seguia forte na liderança, com a francesa Magdalena Boulet em sua cola. Eu me surpreendi quando vi a Emelie Foresberg na sexta posição, pois eu achava que ela estava na liderança, e fiquei feliz ao ver a Anna Frost logo em seguida, retornando de uma lesão que a tirou das pistas por um bom tempo. Depois veio a Ashley, que eu tive a oportunidade de conhecer pessoalmente no Chile e que quando gritei seu nome gritou de volta, “so good to see you!” Foi muito legal. Quando eu já estava mais perto do ponto de hidratação vi a Rory Bozio. Gritei o nome dela, incentivando, e vi que ela não estava muito bem. Ao final da corrida fiquei sabendo que acabou abandonando a prova.

Quando cheguei na hidratação peguei um pouco de comida e já saí correndo. Eu tinha que fazer aquele caminho de volta e da mesma forma seguia escutando e falando aos corredores, “good job”. O cenário daquela trilha estava espetacular e sem dúvida foi um dos momentos mais marcantes de toda a corrida.

Quando me dei conta eu já estava na metade da prova, num ponto de hidratação onde eu podia ter apoio e meu namorado me esperava. Tirei meu corta vento, joguei fora alguns papeis de gel acumulados na pochete, peguei mais comida e saí com o mesmo ânimo do princípio da prova. Ele me informou que eu ocupava a 18a colocação geral feminino.

O trecho seguinte foi muito bonito.

Seguimos por uma floresta mais densa, com árvores bastante altas e um terreno muito macio.

Pegamos trechos de escadaria, alternados com trilhas. Era uma delícia correr ali! Um terreno tão gostoso que não escutávamos barulho dos pés no chão. Eu corria sozinha, no silêncio e em paz. Segui curtindo cada minuto.

Num certo momento alcancei uma menina que também competia nas 50 milhas. Ela olhou para trás umas duas vezes e depois abriu para eu passar. Nesse momento a prova já havia juntado com a prova de 50km e muitos corredores estavam na trilha. Sempre que eu passava alguém, escutava palavras de incentivo. A energia que gira em torno dessa prova é inexplicável.

Quando me dei conta já estava no final da prova. Eu encarava uma grande subida íngreme e ali passei mais uma menina que corrida nas 50 milhas. Apesar de estar cansada, me sentia bem e forte. Corria tudo que podia e olhava o relógio otimista com a quebra das nove horas.

Quando cheguei no último topo havia um último ponto de hidratação e pouco menos de 3 milhas para a chegada. Desci correndo forte e contente com a prova que estava fazendo. Comecei a notar o movimento de pessoas e carros até que me dei conta de onde estava. Eu estava muito perto da linha de chegada. Fiz a última curva e avistei o arco. Olhei no relógio e vi 8:45. Eu havia conseguido atingir a minha meta.

Cruzei a linha de chegada com a mesma energia que cruzei na largada, feliz e satisfeita com tudo que estava acontecendo. Não tenho que agradecer a prova. Tenho que agradecer o ano, a vida, a saúde, família, amizades, oportunidades, aprendizado. São tantas coisas a agradecer e tenho certeza de que essa última jornada de 2013 ao meu interior me levou a agradecer cada coisinha da vida, a começar pelo dia lindo de sábado.

Gostaria de agradecer individualmente a todos que me acompanharam esse ano e que de alguma forma depositaram energia positiva e confiança em mim, mas como não posso fazer isso um a um, agradeço de coração a todos. Vocês sabem quem são e tenham certeza de que fazem parte de tudo isso comigo. Um grande abraço e que venha 2014!

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