Blog da Manu

Trail del Viento - Chos Malal

Já corri muitas provas na Argentina e esse, sem dúvida, é um país pelo qual tenho muito carinho. Dentre muitos Raids de aventura que fiz, posso citar também minha primeira prova de Trail, La Mision, que em dezembro de 2011 me introduziu a esse fantástico mundo das Ultras de Montanha. Mas o norte de Neuquén, Chos Malal, eu não conhecia e confesso que essa viagem foi uma grande surpresa para mim.

Fui convidada a participar do Trail del Viento no começo de 2015, mas como o meu calendário estava repleto de provas bastante longas, eu não sabia como estaria em outubro e deixei para confirmar um pouco mais próximo da data da prova. Consegui tirar um mês de férias depois da UTMB, e recém comecei a correr. Uma prova de 44km viria a me ajudar a entrar em forma então eu aceitei o desafio. Sem se falar na viagem, que me daria a oportunidade de conhecer um novo lugar, fazer novos amigos e rever outros, que eu estava com saudades.

A viagem foi longa, mas ao chegar lá tudo se confirmou. Uma região seca, desértica, rodeada de montanhas altas e nevadas. Aquela mistura de marrom com cinza e branco, destacada pelo azul tão vivo e puro do céu de um lugar que desconhece poluição. Sem dúvida as cores daquele lugar ficarão tatuadas na minha memória.

No sábado pela manhã, enquanto ia no carro para a largada, observava a noite dar lugar ao dia. Aquela troca de cores, com aquelas montanhas tão bonitas, foi um dos maiores presentes de toda viagem. Eu observava em silêncio e contemplava cada minuto.

Ao chegar no local de partida eu desci do carro e notei a temperatura bastante baixa. Estava em torno dos 4 graus celsius, que eu considero bastante frio. O céu estava totalmente limpo e azul e o sol começava a banhar o dia. Eu sabia que a temperatura subiria bastante, por isso não me preocupei em me abrigar muito. Fiquei encasacada até o momento de alinhar, mas às 8:00 lá estava eu, de camiseta e saia, para encarar o desafio.

Larguei devagar, a fim de deixar meu corpo aquecer aos poucos, para poder começar a correr direito. Pensei que entraria em calor muito rápido, mas me surpreendi como demorou. Minha mão estava congelada e eu fechava os dedos, tentando aquece-los, mas parecia que eu estava segurando a mão de uma outra pessoa. Meu pé estava igualmente frio e isso me dava uma sensação muito estranha, principalmente nas descidas. Fui correndo num ritmo bem tranquilo até conseguir ter boas sensações.

A primeira subida variava com trechos íngremes e outros menos, começando por estradas de terra e entrando num single track absolutamente incrível. Nunca vou esquecer o visual daquele lugar. O terreno era super macio e as trilhas divertidíssimas, num sobe e desce gostoso, rodeado de montanhas. Eu curtia cada segundo.

Aos poucos fui me sentindo melhor e começando a forçar o ritmo. A estranha sensação dos dedos foi embora e eu comecei a aproveitar. O terreno variava de trilhas e estradas de terra até que começamos a subida mais dura da prova, que atingiria a cota dos dois mil metros. Nesse momento eu já tinha condição de forçar um pouco mais e comecei a apertar nas subidas, até que alcancei a líder da prova, Gilda Flores. Falei com ela e seguimos muito tempo juntas, alternando a primeira colocação.

Passamos por bosques de pinheiros, trechos com neve e pastos, rodeados de uma beleza impressionante. Apesar de estar numa competição eu contemplava tudo aquilo. Na verdade é a maior beleza desse esporte e é por causa de tudo isso que eu sinto que os quilômetros passam tão rápido. Num certo momento a Gilda me perguntou em que quilômetro estávamos e eu olhei meu GPS que apontava 29km, dos 44 que tínhamos que correr. Parece que o tempo passou voando!

A cada curva, cada mudança de terreno, a vista era ainda mais linda e eu agradecia o fato de estar ali. Eu vinha correndo com a Gilda e mais um outro corredor, quando depois de um single track de descida eu notei que estava sozinha. Peguei uma subida bastante íngreme na sequência e eu me sentia bem, então subi correndo. Essa foi a parte legal da prova, pois apesar de ter bastante desnível, ela era bastante “corrível.”

Quando me dei conta eu já estava encarando a última subida da prova, que ia em zig-zag até o topo. Ali já fazia calor, mas como o clima era seco, não era um calor que me incomodava. Eu me sentia bem e seguia bastante motivada. Ao chegar lá em cima encontrei um dos organizadores, Saul, que me dice que bastava descer um single track de 3km. Parecia que o tempo havia voado!

Entrei no single track, que era uma descida técnica, e eu curtia cada passada. Ele era muito divertido, pois tinha cascalho e deslizava um pouco. Ali passei por alguns corredores dos 20km, que me animavam e me incentivavam. Ao final da descida cheguei num estradão de terra, onde dois motoqueiros me esperavam para me acompanhar até a meta. Eu me sentia super bem e corria forte. As pessoas me incentivavam e um sorriso enorme tomava conta do meu rosto.

Fiz a última curva e me deparei com o arco de chegada lá na frente. Aí vem aquela sensação maravilhosa, da satisfação de completar mais uma prova, mais um desafio, somando experiência e aprendizado. Vem aquele filme na cabeça, com os lugares pelos quais passei e a certeza de que tem muita paixão envolvida no esporte que faço. Sou muito grata por ter tudo isso na minha vida. Para mim, essa é a definição de riqueza.

Gostaria de agradecer os organizadores pelo convite e pela oportunidade, assim como a torcida de todos que me acompanham. Gostaria de agradecer os amigos que fiz ao longo dessa viagem, que se tornaram minha família durante esses dias. Espero ter muitos mais momentos como esse na minha vida.

Obrigada e felicito a organização por uma prova impecável!

6 comentários para “Trail del Viento - Chos Malal

  1. Ler seus post nos mostra que todos nos sentimos da mesma maneira…as mão e pés endurecidos rsss…delicia ler e poder de alguma maneira participar de mais este feito seu !! parabens vc é demais!

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