Blog da Manu

The North Face Endurance Chile

Essa prova foi uma prova especial. Especial eu digo em vários sentidos, começando pela viagem. Sempre é legal conhecer um lugar novo, fazer amizades e sair do ambiente normal do nosso cotidiano.

O ano de 2012 está sendo um ano longo. Tanta coisa aconteceu de janeiro para cá. Foi um ano de muito amadurecimento e de muitos quilômetros rodados. Assim eu vim para Santiago do Chile rodar alguns quilômetros mais.

O designer do percurso foi o Nick Moore, que é quem desenha todos os Endurance Challenge dos Estados Unidos. Ele é o mago do percurso e o que ele fez aqui pareceu também um passe de mágica. Quando baixei a prova no meu GPS lá estava a distancia: 79.97km, ou seja, praticamente cravado. Impressionante conseguir fazer isso num percurso técnico, dominado por single tracks, muitas pedras, raízes e uma altimetria brutal, sem passar por asfalto. É de se tirar o chapéu.

Estamos no final de outubro e quase no final do ano. Eu olho para trás e vejo o quanto já passou e o tanto que fiz. Foi um ano de muitas provas. Esse filme passou na minha cabeça durante o percurso dos 80k.

Largamos às 4:00 da manhã, com bastante frio. Eu nunca havia largado essa hora. É muito estranho porque você tem que acordar às 2:00, ou seja, você quase não dorme direto. O jantar ainda está na barriga e não da fome. O corpo parece demorar a funcionar. Mesmo assim os ânimos de todos nós estava lá em cima e nós sabíamos que estávamos diante de um percurso lindo e desafiador.

Largamos numa descida técnica e muito rapidamente começamos a subir. O frio desapareceu e a temperatura ficou perfeita. As subidas, já de cara, eram duras. Em pouco tempo entramos num single-track e a diversão começou. Eu corria ao lado de duas mulheres, sendo que uma delas começou a conversar comigo. Ela era a Luciana, mulher do corredor John Tidd, vencedor do La Mision 2011 e que vem se destacando cada vez mais nas provas de ultra trail. Ela é um amor de pessoa e ela me felicitava pela prova do CCC e eu a felicitava pela vitória no Cruce de los Andes. Nós corremos quase que a prova toda juntas.

Até o quilometro 40 nós corremos por single tracks e de ali em diante pegamos uma estrada de terra com 20km de subida para chegar na cota máxima da prova: 2800 metros. No trecho final dessa subida eu me sentia bastante cansada e não consegui seguir com a Luciana. Sentia o casaço acumulado e o ganho de altitude. Essa foi uma prova que não corri com o corpo. Corri com o coração. Foi daí que veio toda a minha reflexão.

O que acontece é que conseguimos chegar a um ponto no nosso interior onde jamais conseguiríamos chegar no nosso dia-a-dia. Quando estamos sofrendo, ou com dor, ou lutando para chegar num lugar que parece bem distante, buscamos nossa força interior. Quando o nosso corpo está cansado e recorremos a nossa mente e nosso coração. Quando buscamos a parte mais crua de nós mesmos, a nossa essência. Quando nos sentimos tão verdadeiros que nos faz sentir despidos na frente de um espelho, olhando para um “eu” que não está presente no nosso cotidiano, mas que é o verdadeiro “eu”. Não existe mentira, não existe máscara, não existe falsidade. É muito bonito quando isso acontece porque nos faz chegar em um lugar onde nunca havíamos estado, e que estava ali o tempo todo. É emocionante.

Quando cheguei na cota dos 2800 metros eu estava com 64km de prova e bastante cansada. Eu sabia que daquele trecho em diante eu praticamente só pegaria descidas. Mas descer não é fácil, principalmente quando se desce íngreme e técnico. O single track era de tirar o fôlego. Um visual fora do normal, que faz compensar cada esforço feito. A medida que eu ia descendo eu me sentia mais disposta. O vento gelado já não soprava e eu me sentia confortável de novo. No final da descida um trecho muito íngreme e escorregadio. Apesar de cair várias vezes eu me divertia. Quando cheguei no último PC da prova meu GPS marcava 75.9km e eu sabia que estava bem próxima da chegada.

Cruzei a meta com 10:41, em quarto lugar geral feminino, sendo segundo na categoria, e 13 lugar geral na prova. O que faz um corpo que está cansado percorrer uma distancia tão grande? O coração. Faço pela paixão que tenho pelo que faço, independente de qualquer coisa. Estou muito feliz com o resultado e só tenho a agradecer o apoio de todos pelas palavras de incentivo sempre. Nas horas de dificuldade penso nas pessoas que me apóiam, que estão ao meu lado e que gostam de mim. Isso gera energia para me movimentar sempre para frente.

Muito obrigada mais uma vez!

17 comentários para “The North Face Endurance Chile

  1. Manu isso mesmo nessas horas o coração faz toda a diferença pq ele remove a dor do cansaço e traz a felicidade de estar ali curtindo cada visual que vira prazer.

    parabéns e sucesso sempre…

  2. Parabens pelo texto , acho mt interessante essa busca do corredor pelo estado zen , pela busca do nirvana. Achei legal o seu relato por esta busca que ja mais se encerra e sempre é renovada! parabens pela prova tbm ne !

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