Blog da Manu

The North Face Endurance Challenge Costa Rica

Era uma prova de 80km. Uma corrida de 80km nas trilhas da Costa Rica e, apesar de hoje já ter completado algumas provas com essa mesma distância, encaro com muito respeito cada uma delas. No caso desse Endurnace Challenge, o desafio estava ainda maior por um fator importante: o clima.

Eu já havia feito uma corrida de expedição na Costa Rica e o que me marcou foi uma forte alergia que tive ao calor e umidade, ambos muito intensos. Lembro que tomei 3 injeções por conta de uma reação que começou no pé, inclusive impedindo que eu calçasse o tênis. Eu sabia que não seria nem um pouco fácil para mim, mas ao mesmo tempo queria encarar essa dificuldade pois eu sabia que se conseguisse superá-la, sairia mais forte.

No sábado, dia 31 de maio às 5:30 da manhã, largamos rumo aos 80k em Libéria, Costa Rica. A promessa era de chuva, mas o céu não dava nenhum sinal de que essa tormenta realmente viria. Ao começar a correr, já comecei a suar. Não fazia sol ainda, mas o ar era pesado, me lembrando muito o clima de Manaus.

Começamos por uma Estrada de terra e logo entramos numa trilha que subida gradualmente. Corremos por dentro de uma mata fechada onde já fazia calor por conta de pouca circulação de ar. Estávamos dentro de uma floresta tropical e comecei a escutar um barulho muito alto, feito por algum animal. Rapidamente o corredor que vinha detrás de mim me falou que eram macacos, eu tive a sensação gratificante de estar na natureza.

Cheguei ao primeiro abastecimento com a Sandy colada atrás de mim. Eu peguei um copo d’água e ela seguiu, então saí na sequência. Continuávamos correndo por trilhas dentro de uma floresta e eu procurava me manter atrás dela, mas sentia que já não estava 100%. Eu suava muito e ela começava a se distanciar aos poucos. Pouco antes de chegar ao segundo abastecimento fui ultrapassada pela Katelyn, uma corredora americana que vive na Costa Rica e trocamos algumas palavras. Desejei boa prova e no PC2 resolvi tomar um pouco mais de tempo, me hidratando bastante e abastecendo minhas caramanholas. Eu sentia os ouvidos tapados e isso me dava uma sensação muito ruim.

Saí descendo por um estradão de terra e eu notava a mudança radical de ecosistemas, coisa que o Nick Moore já havia comentado comigo. Era impressionante como podíamos estar correndo dentro de uma floresta tropical, que em pouco tempo virava deserto. O calor já estava mais intenso e eu administrava uma sensação muito ruim. Foi nesse momento de conversei comigo mesma. Entendi que não estava em condições de brigar por posições na prova e que eu precisava me cuidar para conseguir terminar. Resolvi focar em completar, tomando as decisões mais sábias para que isso fosse possível. Se eu forçasse, corria o risco de não conseguir e isso era a última coisa que eu queria. Naquele momento não me importava quanto tempo fosse durar, nem em que colocação eu fosse chegar. Eu só não queria abandonar e essa foi a minha grande motivação.

Foi asism que entrei na parte mais deserta da corrida. Fazia muito calor eu eu torcia para que eu conseguisse sair daquele trecho me sentindo melhor. Eu estipulava metas curtas, então corria e caminhava. Apesar da dificuldade, essa parte foi muito bonita e diferente. Em alguns momentos corremos por um lugar que parecia formar um túnel de terra batida bem clara, com paredes altas e pouca ventilação. No abastecimento na saída desse trecho eu novamente me hidratei bastante e abasteci minhas garrafinhas. O calor era cada vez mais intenso e eu notava os meus braços arrepiados.

Cheguei num trecho de estradão com subidas, que eu novamente ia administrando e fazendo um jogo mental. Meus ouvidos seguiam tapados e aquela sensação me incomodava muito, mas eu seguia em frente. Um pouco antes de chegar ao abastecimento do colégio, observei alguns corredores parados na beira da estrada, debaixo de árvores, fugindo do sol. Nesse PC eu estava com tanto calor que sentia uma confusão mental. Eu não conseguia me comunicar direito e apenas apontava para as coisas que queria. O staff me mandou sentar e jogou água gelada no meu pescoço. Foi uma sensação estranha pelo contraste de temperaturas, mas levantei e segui minha jornada.

Fui administrando até chegar ao abastecimento com 49km. A surpresa foi encontrar o Mário e a Maria Mônica ali, mas infelizmente eu não me encontrava bem. Eles também me ajudaram, jogando água no peu pescoço e enchendo minhas garrafinhas de gelo. Eu estava na beira de uma trilha, onde estavam as águas termais. Imaginei que o trecho seria aliviado pela sombra, mas ao entrar percebi que estava redondamente enganada.

Segui por essa trilha que ia por dentro de uma floresta, muito legal de correr, mas o calor foi o mais forte de toda a corrida. Como a floresta era fechada, o ar simplesmente não circulava. O calor vinha de baixo e a sensação era insuportável. Até então não havia nenhum sinal de chuva e as únicas gotas que eu notava eram as que jorravam do meu corpo, dominado pelo suor.

Eu estava sozinha. Eu gosto de estar sozinha e apesar de todas as dificuldades, eu me sentia feliz. Eu sabia que já havia percorrido mais de 50km de prova e que vinha administrando um mal estar desde o princípio da corrida. Aquilo, de certa forma, já estava sendo uma vitória para mim. Foi aí que comecei a acessar ainda mais o meu interior. Pensei no quanto aquele momento era especial. No quanto eu gosto de estar na natureza e como eu estava num dos lugares mais selvagens que já fui.

Eu não estava sozinha. Eu corria e escutava os bichos comigo o tempo todo. Quando eu pisava na trilha os lagartos corriam de uma lado para o outro. Tudo se mexia. Eu olhava as árvores tombadas, saltava raízes, cruzava rios e começava a sentir o quanto aquilo tudo era especial. Eu corria com muito mais alegria.

Assim os quilômetros foram passando e de repente fui surpreendida pela forte tormenta. As trilhas rapidamente começaram a ficar inundadas e já era necessário correr com muito mais cuidado, pois não dava para saber a profundidade das poças. A parte boa é que o calor dava uma trégua e com isso eu corria muito melhor. Os trovões estouravam com muita volência e era possível sentir a forte presença da natureza. Em certo momento eu corria por um trecho descampado e os raios não paravam de cair. Eu sabia que já estava mais perto do final e pedia apenas proteção.

Foi assim que cheguei ao ultimo abastecimento, apenas a 3,5km da meta. Sabia que faltava pouco e refletia sobre tudo que havia acontecido. Pensava no quanto havia trabalhado minha cabeça para chegar ali e no quanto havia conseguido fazer com que a minha mente pegasse o meu corpo no colo e o levasse para percorrer esses 80km na Costa Rica. Pensava na magia de tudo aquilo e comprendia o quanto havia sido importante para mim. Foi um dia de amadurecimento e crescimento e assim cruzei a linha de chegada, comemorando mais uma prova de 80km na minha vida.

Uma vez usei um ditado que achei muito boa e agora vou usá-lo mais uma vez, por achar que se encaixa muito bem e resume o que vivi.

“It’s not about how hard you hit. It’s about how hard you can be hit and still keep moving forward.”

*Dedico esse meu 4 lugar no The North Face Endurance Challenge Costa Rica à minha amiga Maria Mônica, que estava lá e que fez aniversário no dia da corrida.

6 comentários para “The North Face Endurance Challenge Costa Rica

  1. Manu! Espero que você saiba o quanto seus relatos incentivam, motivam, ajudam e emocionam todos que os lêem! Sua forma de encarar um desafio tão difícil, de respeitar seu corpo e todos os lugares pelos quais você passa é INCRÍVEL! Você já venceu tantas batalhas e cada novo relato é uma emoção diferente! Parabéns é pouco! Por tudo que você é! Vou ficar com uma frase que você escreveu na cabeça : “…no quanto havia conseguido fazer com que a minha mente pegasse o meu corpo no colo e o levasse para percorrer esses 80km na Costa Rica.” Beijão!

    • Ju, seus comentários me emocionam. Obrigada por ser essa pessoa tão querida e por me incentivar tanto. Saber que meus relatos te motivam é muito gratificante para mim. Saiba que assim como você torce para mim, eu também torço sempre por você.
      Beijo grande :)

  2. Muito bacana a forma como você lida com todas as diferentes situações com as quais você se depara durante as corridas. Independente da situação na qual você se encontra, está sempre buscando algo de positivo que te fortaleça, seja no seu interior ou ao seu redor. Isso é um grande aprendizado para nós que estamos começando. Parabéns pela emocionante narrativa e por superar mais essa dura batalha. Assim como a Juliana comentou, tenha certeza de que todos nós aprendemos e nos motivamos muito com seus relatos. Uma das primeiras coisas que você me falou há um ano atrás foi NEVERGIVEUP e tem sido com esse pensamento que eu tenho encarando meus desafios. =). bjs, Manu!

    • Muito obrigada pela torcida, Daniel. Eu fico muito feliz de saber que eu posso contribuir com a sua evolução, mesmo que seja através de um relato como esse. Tenho um orgulho enorme de vocês (vc e a Ju) e tenham certeza de que a torcida da minha parte também é enorme. Minhas energias positivas que acompanhem vocês nos 50km de Ilhabela e que ela os guie sempre com muita alegria. Muito boa sorte e Never Give Up! :)
      Beijos

  3. Vc sabe que eu leio seus relatos há séculos rsrs e, mais uma vez, adorei!
    Reprogramar e definir metas enquanto em curso, avaliar situação, decidir… isso é muito difícil e a capacidade de fazer um julgamento com algum critério fica muito prejudicada nessas condições de esforço e tanta adversidade.
    O que eu mais gostei de ver aqui dessa vez, Manu, foi o tanto de amadurecimento e experiência que vc transmitiu, além da forma carinhosa e parceira com que o seu mental se colocou ao lado do físico: sua cabeça não brigou com o corpo, ela o carregou no colo, entendendo e aceitando a limitação daquele momento.
    Essa foi uma grande lição para nós.
    Bjo grande e parabéns!

    • Elina, querida!
      Obrigada por ler, acompanhar e torcer. Obrigada pelo incentivo desta mensagem que me mostra que compartilhar as minhas experiências pode ser um aprendizado para muitos. Obrigada pelo carinho e pela amizade.
      Beijo grande

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