Blog da Manu

The North Face Endurance Challenge - Cochasqui, Equador.

Eu conheci o Equador há dois anos, quando fui correr o Endurance Challenge em Lago San Pablo. Lembro perfeitamente o quanto sofri. Subidas onde eu poderia perfeitamente correr o tempo todo, naquele dia tive que caminhar. Me faltava oxigênio e eu administrava uma sensação ruim durante todos os 50km. Pensei para mim mesma que nunca mais iria voltar, mas em 2014 resolvi aceitar o desafio de correr os 80km.

Competir na cota dos 3 e 4 mil metros não é nada fácil, especialmente para quem mora no nível do mar. É claro que a aclimatação é algo muito particular, independente de se você tem um bom preparo físico ou não, mas de uma coisa eu tenho certeza: não dá para competir de igual para igual com quem vive a 3 mil metros, estando apenas uma semana em altura.

Cheguei a Quito no dia 19 a noite, mas passando muito mal. Aliás, não sei como sobrevivi esse longo dia viajando, alternando saguão de aeroporto, avião, ônibus, taxi etc. Eu havia contraído uma virose na semana anterior que havia me derrubado por completo. Estava de cama há alguns dias, sem poder treinar, e eu só acordava pior. Muita congestão, moleza, mas por sorte não tive febre. Apesar de chegar muito cansada em Quito, eu teria uma semana para me recuperar e tinha certeza de que conseguiria.

Dois dias se passaram e eu acordei igual, mesmo sem ter feito nenhum esforço. Na segunda feira resolvi procurar o médico, pois eu ainda tinha 5 dias para a largada. Cheguei a pensar em antecipar a minha passagem e voltar ao Brasil. Eu não acreditava que tinha ido à Quito passar mal! O médico me receitou antibiótico por 5 dias, ou seja, no sábado eu já teria terminado e estaria 100%. Ele praticamente me garantiu que eu estaria curada e isso me deixou mais contente. Apesar de saber que tomar antibiótico antes de uma prova não é nada bom, correr nas condições que eu me encontrava era impossível e isso não me deixava com muitas alternativas.

Tomei o antibiótico por 5 dias. Senti uma leve melhora, mas ainda longe de estar 100%. Foi aí que tomei a minha decisão. “Eu vou largar e se eu me sentir mal vou parar.” Esse é o tipo de decisão que tem que estar muito clara e resolvida, pois abandonar uma prova não é uma coisa que nós atletas gostamos de fazer. A partir do momento que temos isso claro e decidido, principalmente por questões físicas e respeito ao nosso próprio organismo, deixamos de sofrer com um possível abandono.

Na sexta feira saímos de Quito e fomos para Cochasqui, onde dormimos em cabanas ao lado da largada. Fazia frio, mas não tanto. A largada estava marcada para às 4:00 da manhã então assim que cheguei tratei de jantar e descansar. Minhas coisas já estavam todas organizadas e posicionei minhas roupas e acessórios na cadeira, enchi minha mochila com minha alimentação e hidratação e fui dormir.

Por sorte eu sou muito boa nesse tema de dormir. Do jeito que eu deito eu apago e consigo dormir um sono profundo, mesmo dividindo cabana com outras 3 pessoas, com movimento de entrada e saída e luz acendendo e apagando, telefone tocando (me contaram tudo isso, porque eu mesma não vi!).

Ao som do despertador me levantei às 2:30 da manhã e fui direto tomar café. É um pouco complicado comer essa hora, mas nesse dia foi fácil para mim. Eu sabia que precisava dessa energia e sou muito disciplinada com isso. O que minha nutricionista me manda comer, eu como. Assim que acabei fui trocar de roupa e fiquei pronta para largar. Fazia frio, mas eu sabia que logo ao começar a correr eu entraria em calor, então botei apenas um manguito.

Fui para a largada caminhando e entrei na área determinada pela organização. Eu estava super tranquila e apenas esperava o sinal de início de prova. Eu sabia que teria pela frente um percurso de 80km muito duro, mas também sabia o quanto ele seria maravilhoso.

Depois da contagem regressiva de 10 segundos, larguei meu GPS e comecei a correr. Saímos todos numa reta, e em menos de 1 minuto já começamos a subir, com uma inclinação bastante forte. Meu pulmão começou a arder e eu sabia que subiria dos 3 aos 4 mil metros. Saquei meus bastões e comecei a caminhar em ritmo forte, evitando correr naquela subida tão inclinada. A parte mais frustrante de tudo isso é saber que você é capaz, mas ter que entender que naquele dia e naquelas condições não. Eu não podia mudar o fato de que estava doente e nem queria me lamentar por isso, então apenas respeitei meu limite e segui adiante. Eu subia conversando com a Miriam Pozo, que veio a ser a vencedora da prova, e nós trocávamos informações sobre onde vivíamos, provas que fizemos etc.

Em mais ou menos uma hora de prova a minha lanterna começou a piscar. Eu não estava acreditando, pois era apenas uma hora de uso, e eu ainda tinha mais uma hora no escuro. Nessa hora a Miriam começou a abrir, junto com mais 2 outros corredores, e eu fiquei sozinha. Eu mentalizava para que a minha luz não fosse embora de vez e olhava para o céu na esperança de ver tons de azuis mais claros.

Assim segui subindo, até que comecei a avistar uma montanha bastante pontiaguda, destacada pelas cores mais claras do céu que as começavam a envolver. Estava amanhecendo e eu havia me safado de ficar sozinha no escuro. Isso já era um motivo para eu comemorar.

Com isso a subida terminou e eu comecei a descer. O cenário talvez tenha sido o mais bonito de todo o percurso, pois eu estava correndo na margem de um lago, a 4 mil metros de altura, com o céu azul em cima de mim, montanhas rochosas desenhando um lindo contorno, e na minha frente um maravilhoso cume nevado. Quando me deparo com tudo isso eu me pergunto internamente, “Por que as pessoas ainda me perguntam por que eu corro?”

Segui por ali, até que encontrei o segundo ponto de abastecimento e a entrada de uma trilha. Apesar de ela inicialmente ser em descida, sua progressão era muito lenta. O mato era muito fechado, com muitos galhos atravessados que cortavam minhas pernas. Quando tenho que percorrer uma trilha assim, procuro não pensar que os arranhões doem. É necessário levar a mente para outro lugar e encarar tudo isso de outra forma, desfrutando a beleza da natureza. De fato era um lugar muito bonito, incrível! A trilha era bastante úmida e eu percebia que estava dentro de uma floresta muito selvagem. As espécies de plantas eram muito diferentes de todas que eu já havia visto antes e isso mantinha minha mente ocupada. A trilha foi bastante longa, até que chegamos em mais um ponto de controle, que era o início de um estradão de terra.

Era um alívio poder correr depois de tanto tempo transitando por uma trilha de mato fechado, onde até o chão se fazia difícil de ver. Eu corria mais fácil e curtia o visual. Comecei a descer e ali fui passando alguns corredores, pois eu vinha com uma passada bastante solta, enquanto a maioria deles corriam travados. O meu problema estava nitidamente nas subidas, onde eu não conseguia fazer muito esforço, então aproveitava as descidas para recuperar um pouco do tempo perdido.

Entrei em outra trilha, que começou subindo um pouco e logo depois se transformou em uma longa descida. Como essa trilha não tinha tanto mato fechado, consegui colocar um bom ritmo e ganhar tempo. Foi aí que tomei um super tombo e quebrei meu bastão de carbono. Eu estava com eles na mão e pensava em guardá-los depois, mas com isso fui obrigada a botá-los dentro da mochila. Segui correndo pela trilha até que cheguei em outra estrada de terra. Era uma descida muito longa e eu procurava tirar vantagem disso.

Cheguei em mais um ponto de abastecimento e o sol já estava bem forte. Recarreguei minha mochila com água e segui, junto com dois outros corredores. Subimos um pouco por outro estradão de terra até que atingimos mais uma trilha, por onde despencamos muitos metros mais. Essa parte também foi muito divertida porque eu ia atrás deles, que estavam em bom ritmo. Aproveitei a “carona” e segui junto, até chegar no ponto mais baixo da prova, cerca dos 2 mil metros de altura. Eu sabia que já estava na metade do percurso isso me animava. Eu sabia que se havia feito até ali, teria grande chance de terminar.

Eu também havia decorado o gráfico de altimetria da prova e sabia que estava prestes a encarar mais uma subida de mil metros, até a cota dos 3 mil. O que eu não sabia era que seria uma subida “curta e grossa, direto ao ponto.” Foi uma subida terrível e o sol forte tornava tudo mais difícil, mas o visual, por outro lado, compensava. Um corredor equatoriano ia comigo e isso também tornava tudo um pouco mais fácil, pois trocávamos algumas palavras em alguns momentos. Alcançamos mais dois corredores e chegamos ao próximo PC todos juntos. Eles me diziam, “Muy bien!”

Mais uma vez comi e me hidratei sem perder muito tempo e saí. Apenas um deles veio comigo e os outros dois ficaram sentados no chão. Eu podia ver que não estava fácil para ninguém. Seguimos por meio de um pasto, que virou uma plantação de milho, e aí voltamos a subir por uma estrada muito sinuosa. Era muito bonita porque era possível ter uma visão muito ampla de tudo. Era uma zona agrícola, com muitos animais por todos os lados.

Mais uma vez entrei numa trilha descendo, e no final dela encontrei uma pessoa deitada no chão, atravessada. Era um corredor dos 80km e perguntei se ele precisava de alguma coisa. Foi aí que notei que ele havia vomitado muito. Tentei dar a mão para ele e fazer com que ele levantasse. Eu via o fim da trilha na minha frente e já avistava um estradão, com casas ao redor. Eu imaginava já estar perto do próximo PC e sugeria acompanhá-lo até lá, mas ele preferiu ficar deitado e me pediu que avisasse a organização de que ele estava passando mal.

Segui por essa estrada, olhando para frente buscando uma estrutura que indicasse a chegada de um PC, mas não vi nada. Via muitas casas, pessoas lavando roupa, porcos deitados no chão, cachorros, galinhas, mas não via sinal de estrutura da prova. Eu já estava com pouca água e o calor era intenso. Sabia que pegaria uma subida dos 3,000 aos 3,500 metros e me perguntava se não teria a oportunidade de abastecer minha mochila antes de encarar mais esse trecho duro.

Mais uma vez entrei numa trilha que começou a subir, íngreme. Percebi que ali não teria abastecimento e que eu teria que administrar minha água. O calor era cada vez mais forte. Me desloquei pelos menos 300 metros para cima, até que cheguei de novo a um estradão. Segui subindo até que consegui avistar um PC. Ufa! Eu estava salva.

Ali vi a placa acusando 15km para o final. Nossa, como havia passado “rápido”. Apesar de no relógio não estar nada rápido, na cabeça estava. Parecia que em um passe de mágica eu já havia chegado aos 65km de prova. Eu cada vez tinha mais certeza de que iria acabar.

Mas aí veio a parte mais desafiadora da prova. Os 15km finais, que pareciam super rápidos, se tornaram bastante demorados. Mais uma vez entrei numa trilha daquelas bem fechadas, onde a progressão se tornava muito lenta outra vez. Os galhos pontiagudos arranhavam minhas pernas e eu tentava ignorar a dor, mas no final da prova fica mais difícil ignorá-la. Eu olhava para cima e via alguns corredores passando e isso me indicava o quanto ainda tinha que subir. Já estávamos correndo junto aos corredores dos 50km, por isso havia mais gente por perto.

Mais uma vez comecei a descer e isso me animava. Voltava a progredir com mais velocidade, que consequentemente faria com que a linha de chegada se aproximasse mais rapidamente. Por aí segui algum tempo até que avistei uma estrutura de PC na estrada abaixo e adiante de mim. Quanto faltaria para o fim? Eu imaginava algo como 2 ou 3km no máximo, mas evitava de olhar o GPS.

Quando cheguei ao PC, muitos me incentivavam anunciando que eu era a segunda mulher. A ducha de água fria foi ver a placa de que faltava 5,3km, que apesar de ser uma distância muito curta, durou uma eternidade. Eu segui por uma estrada de terra plana, que depois de uma curva para a esquerda virou uma subida bastante longa. Eu via corredores passando lá no alto e isso tornava a subida mais difícil mentalmente. Eu caminhava e sabia que estava próxima do fim. Mesmo sabendo que estava difícil, comemorava internamente o fato de estar chegando ao fim. O que parecia impossível inicialmente, estava se concretizando. Eu estava conseguindo concluir uma prova muito dura, numa altitude que para mim é muito elevada, e ainda superando uma virose muito forte. A combinação de tudo isso era uma vitória incrível para mim.

No final da subida peguei um plano, seguido de uma descida, até que virei para a esquerda e comecei a percorrer o acampamento. Eu estava a menos de 1km da chegada. Corria por ali, as pessoas me aplaudiam, até que eu finalmente avistava o arco de chegada. Para completar minha felicidade, meus companheiros de equipe estavam todos lá para me receber. Cruzei a linha de chegada com uma satisfação imensa e a sensação de dever cumprido. Fui abraçada por todos com muito carinho e isso só me fez ter a certeza de que tudo havia valido à pena. Cada passo, cada metro, quilômetro, cada tropeço, arranhão, cada detalhe dos 80km tinham sido muito válidos para mim. Tudo estava em perfeita harmonia e fazia todo sentido naquele momento. A minha felicidade era completa e aí sim me sentia autorizada a tentar o Cotopaxi no dia seguinte, um sonho que construí com o Gustavo Reyes no começo da viagem.

Aguardem o próximo post sobre o Vulcão Cotopaxi e nossa aventura de domingo!

Gostaria de parabenizar todos os corredores pela prova tão dura, a organização pelo percurso perfeitamente marcado e os pontos de abastecimento tão completos e pela beleza do lugar. Gostaria de agradecer o governo de Pichincha, TNF Equador, The North Face Brasil, D Vitaminas, IBS, Recoveryou, Espaço Nirvana, Kofukan e Compressport Brasil pelo apoio. Gostaria de agradecer aos amigos por todas as palavras de apoio e de incentivo que tive ao longo dessa semana Essa será mais uma jornada inesquecível no meu caderninho de aventuras.

Obrigada!

*Fotos: Gabriel Cadenas

2 comentários para “The North Face Endurance Challenge - Cochasqui, Equador.

  1. Adorei o relato! Parabéns por toda sua dedicação em ficar boa para poder correr.
    Mais uma aventura que ouvi você contar e agora acabei de lêr e ver as fotos… Estou pegando meu casaco de frio para lêr a a próxima aventura no Cotopaxi. Continue escrevendo!

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