Blog da Manu

The North Face Endurance Challenge Chile

Quando o despertador tocou às 1:15 da madrugada eu estava perdida. O quarto totalmente escuro e eu já nem lembrava onde estava. Quase apertei o “snooze”, mas aí me lembrei que era o alarme para eu ir para a prova. Estava na hora de levantar.

Eu já tinha deixado tudo separado então quase como um robô me preparei e desci. Só consegui comer uma banana, pois estava com a sensação de estômago cheio do jantar. Encontrei com os outros atletas e staff TNF e entramos na van para ir para a largada. Eu estava com bastante sono e fui cochilando o tempo todo. Quando chegamos lá ainda faltava mais de uma hora para a largada então fiquei dentro da van para não pegar muito frio. Consegui tomar um copo de café e comer um pouco mais e quando me dei conta já nos estavam chamando para alinhar.

Eu estava muito animada e com muita vontade de correr. Recordava do ano passado, quando cheguei muito cansada para essa corrida e infelizmente tive que andar muito durante o percurso. Esse ano eu queria fazer diferente e foi esse um dos maiores motivos para eu voltar. Foi com essa alegria e motivação que larguei e apertei o botão de “start” do meu GPS.

Eu lembrava de algumas partes da prova mas de noite fica um pouco mais difícil de reconhecer. Os trechos iniciais eram em estradas de terra, que logo viraram single tracks bastante técnicos. As descidas eram bem complicadas porque os corredores levantavam uma poeira ao passar e isso dificultava bastante a visão. Era necessário descer com muito cuidado.

Eu controlava minha sensação a todo tempo. Sabia que deveria correr fazendo força, porém respeitando uma zona de conforto. Eu queria me preservar para o trecho de estrada de terra que viria do quilômetro 40 ao 60, uma subida bastante dura. Eu estava perto da chilena Marlene Flores, também atleta TNF que ano passado havia chegado 20 minutos na minha frente.

Na verdade fizemos boa parte da prova quase juntas. Ela ficava no meu campo de visão e às vezes abria um pouco, mas acredito que não tenha aberto mais de 4 ou 5 minutos. Eu me sentia bem e procurava analisar a prova como um todo, por isso não me preocupava em busca-la . Eu consegui fazer uma excelente estratégia de alimentação e ficou nítido que nunca falou energia. Tomava meus Hammer Gels e nos pontos de abastecimento comia coisas mais sólidas. Também me hidratei bastante e com isso me senti forte durante todo o percurso.

Por volta do quilômetro 25/30 as subidas começaram a ficar mais travadas e eu peguei meus bastões na mochila. Nossa, como eles fizeram diferença! Já de cara pude buscar um pelotão 3 homens que estavam na minha frente e passei em ritmo forte e consistente. Daí para frente minha prova só foi crescendo. Fui buscando e passando muita gente, até que cheguei na estrada de terra para qual tanto me preservava. Eu sabia que esse era um trecho duro, pois ele testava a parte psicológica dos atletas. Era uma subida sinuosa que parecia não ter fim. Foi ali que vi a Marlene de novo e percebi que estava chegando cada vez mais perto.

Quando encostei ela olhou para mim, botou a mão na coxa e reclamou de cãibras. Eu não podia fazer muito, mas tirei um gel da mochila e imediatamente dei para ela. Disse que deveria come-lo, se hidratar bastante e que provavelmente iria se recuperar. As cãibras estavam acontecendo provavelmente por uma desidratação e pelo esforço que ela estava fazendo.

Segui pela estrada na mesma batida que havia iniciado. Eu estava me sentindo forte, motivada e focada. Eu ia alcançando e passando corredores o que acaba sempre sendo um ânimo a mais. No ponto de abastecimento dessa estrada comi uma batata cozida e me hidratei bastante. Eu queria seguir com a mesma energia até o final e por isso não queria vacilar em nada. Eu havia assumido a liderança feminina mas também sabia o quanto as meninas eram fortes, por isso não deixava de fazer forca nenhum minuto.

Ao final dessa estrada pegamos um trecho de single track que foi bastante pesado. O cansaço acumulado, a altitude (essa foi a cota mais alta, 2500m) e o terreno arenoso contribuíram para que aquele trecho fosse bastante dolorido. Quando cheguei ao topo tudo compensou. Me deparei com um visual incrível e o início de uma descida técnica e divertidíssima.

Os bastões ali também tiveram sua enorme importância, pois me ajudam a descer mais equilibrada e com mais segurança. Havia muito cascalho solto e esse tipo de terreno é bastante traiçoeiro, então encarei com muita concentração. Sempre que eu podia eu olhava para os lados e para um ponto bem distante, aproveitando a beleza única daquela região. Foi assim que aproveitei essa LONGA descida até chegar próximo de Santa Martina, onde era a meta. Eu estava com um corredor, Luiz, e ele vinha sofrendo de dor no tornozelo. Foi legal termos ido juntos pois acaba sempre sendo uma motivação maior.

Ao chegar praticamente na meta nos deparamos com o último abastecimento e a “pegadinha”. Essa parte era diferente do ano passado e foi um enorme teste psicológico, pois quando imaginávamos que estávamos prestes a finalizar, tínhamos que fazer um “loop” de mais 7km. Fazia muito calor e o sol estava bastante forte, então me abasteci com muita água gelada antes de sair.

Pegamos uma subida bastante travada e depois começamos a descer suavemente. Toda hora que a trilha apontava em direção a Santa Martina eu imaginava que estávamos acabando, mas aí a trilha se virava de costas mais uma vez. Os últimos quilômetros são sempre difíceis e demoram a passar, mas esses…. Confesso que foram ainda mais longos.

Quando chegamos a uma placa que apontava para a esquerda encontramos um staff que nos confirmou que estávamos acabando. Faltava apenas 1.5km. Eu não acreditava. Seguia em primeiro lugar e estava muito perto de cruzar a meta como campeã dos 80K do The North Face Endurance Challenge Chile, título super importante que eu estava prestes a conquistar.

Quando chegamos no asfalto eu via a meta muito próxima. Era uma subida e já estávamos muito cansados, mas era o esforço final. Entramos no corredor de cones e lá estava o pórtico, com a faixa para que eu pudesse cruzar. Eu olhei no meu GPS e vi que estava com menos de 10 horas, o que me deixou ainda mais feliz. Escutei meu nome no microfone e naquele momento tudo se tornou real e palpável. Agarrei a faixa da chegada com força e comemorei essa vitória tão importante para mim.

Eu só tenho a agradecer a força de toda essa torcida enorme que me acompanha e me surpreende cada vez mais com tantas mensagens carinhosas e motivadoras. Agradeço a equipe de profissionais que me acompanha, acredita em mim e que vêm me mostrando o quanto sou capaz de evoluir. Agradeço minha família, meus amigos e meu namorado, que me entendem a minha rotina de treinos e de competições e estão sempre ao meu lado. Agradeço meu patrocinador The North Face e meus apoios Hammer, Aquasphere, IBS, P9 e Niner Brasil. O ano de 2013 ainda não acabou, mas o que posso dizer é que estou vivendo o ano mais incrível da minha vida.

Obrigada por tudo!

8 comentários para “The North Face Endurance Challenge Chile

  1. Seus relatos são muito bacanas, Manu. A riqueza de detalhes com a qual você descreve suas conquistas é demais. São tantas vitórias em um intervalo de tempo tão pequeno que os elogios até se tornam repetitivos, mas você consegue fazer melhor a cada dia e isso é admirável. Cada um de nós sabe aquilo que nos dá um gás extra ao longo dos vários kms que temos pela frente e, no sábado, durante minha corrida, lembrei que você deveria estar dando o seu máximo no Chile e assim também o fiz. Se você agradece seus fãs pelo reconhecimento e pela força que eles te dão, nós também agradecemos pela força e inspiração que você nos transmite. Parabéns por mais essa! obs: Mais alguns anos e eu vou querer um livro com todas essas histórias hein rsss

    • Poxa, Daniel, que recado bacana que você me deixou. Fiquei muito, mas MUITO feliz mesmo com essa mensagem. É bom demais saber que consigo contagiar vocês com essa paixão pela corrida e tenha certeza de que fiquei muito orgulhosa de vc na prova. É isso aí, fazendo sempre o melhor e nunca deixando de lado a diversão, pois sem isso nada faz sentido.
      Bons treinos e quem sabe uma dia sai um livro…kkkkk
      Bjos

  2. Manú Parabéns!!! Dilicia seus relatos, sabemos o quanto se dedica para cruzar a linha de chegada…treinos diários…sempre focada, com muita garra e determinação…pode acreditar amiga és um exemplo de VIDA para todos nós obrigada sempre por isso. Mesmo distante sentimos um imenso carinho por você. Deus continue derramando suas bençãos sobre você. Forte Abraço. Casal 20 Rose e Cido os Bikers.

  3. Parabéns!!! Guerreira!!! Força Feminina!!! Amiga!!! Que nos enche de Orgulho Sempre…Manú sabemos de sua dedicação diária para alcançar seu objetivos sempre focada e determinada você é a inspiração de muitos nas provas e na VIDA obrigada sempre por nos fazer acreditar que não existem limites…mesmo que distante terá sempre nossas orações e carinho. Deus te Abençoe. Te Amo. Beijão no seu <3. Rose e Cido Casal 20 Bikers.

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