Blog da Manu

LUT 2015

São 22:00 de uma sexta feira e eu me visto para sair. Cuidadosamente arrumo o cabelo num rabo de cavalo e boto uma bandana na cabeça. Passo protetor no rosto, enquanto me olho no espelho. Dou uma última verificada na minha mochila para saber se estou levando o que preciso, enquanto calço o tênis. Saio do hotel, deixando minha chave na recepção, em direção à festa que acontece no centro de Cortina d’Ampezzo. Estou caminhando para a largada da Lavaredo Ultra Trail, prova de 119km que percorre a região das Dolomitas, na Itália.
O cenário é de festa e os ânimos também. A cada passo que dou, descendo pela cidade, me deparo com pessoas vestidas como eu, desfilando seus números de prova. Para os de fora, parecemos todos loucos. Para nós, uma alegria. Não tem outro lugar por onde eu gostaria de estar e ali me sinto feliz e realizada. Estou prestes a largar numa prova que está no topo da minha lista de favoritos e assim encaro o presente momento. Nenhuma ansiedade, nenhum medo. Sinto apenas uma enorme gratidão por estar ali e preparada para dar meus novos passos nesse cenário de beleza. Foi assim que cruzei o pórtico de largada em 2015.
Correr durante a noite é uma coisa que eu adoro. É um tanto quanto mágico correr entre todas aquelas luzes, onde nenhuma delas tem uma real identificação. As pessoas deixam de ser pessoas e passam a ser focos de luz. Eu não olho para nada nem para ninguém. Apenas entro na viagem daquele túnel imaginário, que é a única coisa que vejo pois é a única coisa que a minha lanterna alcança. Naquele momento, a única coisa que existe é o foco de luz por onde consigo iluminar e nesse mundo me fecho.
Eu saí para fazer a minha prova e melhorar o meu tempo do ano anterior. Imaginava que isso não seria muito difícil, pois me recordo que em 2014 cheguei em Cortina muito cansada de tantas provas que corri no primeiro semestre. Esse ano, já um pouco mais experiente, decidi não abusar demais do meu corpo e buscar um melhor rendimento. Isso já senti evidente na primeira subida, onde pude correr e curtir, sem sofrer, pois quase não escutava minha respiração. Sabia que fazer bem essa subida me daria um fôlego para descer bem pelo single track sem ser atropelada, e foi exatamente o que aconteceu. Assim seguia curtindo, feliz, e super focada no que estava fazendo.
Nos trechos planos também me saía muito bem porque consegui manter um bom ritmo. Eu não lembrava de cada detalhe do ano anterior, por isso muitas vezes seguia sem saber muito bem o que vinha pela frente. Quando lembrava era uma vantagem pois me preparava mentalmente e fisicamente para o trecho seguinte. Eu tinha em mente que em 2014, começou a clarear quando eu estava chegando no Lago Misurina, portanto esse ano buscava botar um bom ritmo para que eu passasse por ali ainda no escuro. Grande felicidade minha, pois consegui! Se por um lado perdi a beleza do lago visto à luz do dia, por outro tive a sorte de assistir o amanhecer no Refugio Auronzo, aos pés do Tre Cime di Lavaredo. Esse, sem dúvida, é um dos visuais mais alucinantes de todo o percurso. É quando nos vemos rodeados de montanhas lindas e imponentes. É quando nos sentimos tão pequenos e tão insignificantes. É o trecho mais alto da prova e de nos tirar o fôlego, no sentido literal e figurativo. Ali lembrei do meu amigo João Marinho, pois estávamos juntos em 2014. Pensava nele e no quanto a vida é incerta, pois nunca podia imaginar que um ano depois ele não estaria mais entre nós. Era a certeza de que realmente temos que curtir cada instante nessa vida, pois nunca sabemos o que vem pela frente.
Passando pelo Tre Cime encarei uma longa descida. Essa eu lembrava bastante, e como me sentia bem das pernas, podia descer com velocidade. O vale era lindo e eu respirava fundo, olhando para os lados e aproveitando o espetáculo da natureza. No final dela eu tinha que encarar um longo trecho que parecia plano, mas que era uma leve subida. Isso eu lembrava bem, pois é uma coisa que parece fácil, mas quando você já está na metade da prova não é tanto. Eu tinha um ipod no bolso e botei uma música para relaxar e para me motivar a correr por ali. Não me rendi a andar em nenhum momento e quando notei já estava no ponto de abastecimento seguinte. Minha equipe de apoio se mostrava muito contente e isso me motivava pois sentia que estava fazendo uma boa prova.
Segui para o trecho seguinte, que eu também lembrava bastante. Uma subida bastante íngreme, com várias pequenas quedas d’água, lindas. O cenário era realmente maravilhoso. Eu me sentia tão feliz que até cantava. Estava sozinha, e isso também é uma coisa que me agrada muito. No topo dessa subida podia ver as montanhas a minha volta e agradecia cada visão maravilhosa que tinha. A descida seguinte era super divertida e eu corria com facilidade e alegria. Quando percebi já estava no ponto de abastecimento e me sentia cada vez mais forte.
Segui em bom ritmo, sabendo que a parte mais dura da prova é no final. Eu começava a encarar subidas bastante íngremes, e quando você já está com muitos quilômetros nas pernas, isso se torna cada vez mais difícil. Por outro lado o visual sempre compensava. A cada topo, uma cena ainda mais linda que a anterior. Eu me mantinha focada e nunca deixava de admirar tudo que via. Sabia que aquilo era um grande presente.
Quando cheguei ao Paso Giau minha equipe de apoio estava em êxtase. Desse ponto em diante faltava apenas 16km e eu os veria na chegada. Eu sabia que ainda teria que encarar duas subidas, sendo que a primeira delas muito íngreme. Apesar do cansaço, eu sabia que estava fazendo uma boa prova e me mantinha sempre muito atenta. Quando terminei a última subida já pude avistar a cidade de Cortina lá embaixo. Me enchi de felicidade. Eu descia super bem, pois estava concentrada e tinha energia. Lembrava que o final da prova era todo de descidas técnicas e perigosas, mas para minha surpresa encarei esse trecho com velocidade muito superior ao que imaginava que faria. Eu estava super focada, atenta e presente e isso me ajudava nas descidas. Se por algum momento minha mente começava a viajar, eu rapidamente a trazia de volta. E assim se passou o trecho final, que me trouxe de volta ao centro da cidade. Quando virei na rua principal, avistei aquele enorme corredor de gente e o arco de chegada. Eu corria sorridente e agradecida por aquele corredor humano que me felicitava. A sensação é indescritível.
Ao cruzar a linha de chegada e parar meu cronometro, fui puxada pelo locutor que imediatamente me perguntou:
-Você sabe em que lugar você chegou?
-Não tenho a menor idéia- respondi.
-Você chegou em quinto lugar! Está feliz?
Aquele sorriso gigante veio no meu rosto, enquanto minha equipe de apoio e todos da TNF me rodearam e vieram me abraçar. Eu estava muito cansada, porém muito feliz. Estava muito grata e só pensava no quanto tinha a agradecer. Baixei meu tempo de 18:46 para 15:55, quebrando meu recorde pessoal e entrando para o pódio pela segunda vez em 2015, numa prova do circuito UTWT. Obrigada, obrigada, obrigada! :)

6 comentários para “LUT 2015

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