Blog da Manu

Courmayeur Champex Chamonix

Hoje acordei às 4:52 da manhã sem alarme. Apesar de ter dormido bem tarde ainda estou no horário de Chamonix. Meu corpo está acostumado às 5 horas adiante e agora vejo que a minha cabeça também. Nunca foi tão difícil voltar de uma viagem. Acho que agora me refiro a uma viagem no sentido literal e figurativo. Foi quase um sonho e agora eu fico com aquela sensação de “me belisca” para saber se tudo foi verdade. Fico olhando as fotos desses 15 dias e parece muito mais um delírio do que uma coisa real.

Sento em frente ao computador e sinto que é hora de escrever. Estou de volta na minha casa. Foi um dia inteiro viajando e eu deveria estar exausta, não querendo sair da cama. Faz “frio” no Rio de Janeiro (cada vez que volto me sinto até culpada de usar a palavra FRIO e RIO DE JANEIRO na mesma frase). Eu deveria estar saudosa de casa, como sempre fico. Confesso que quando abri a porta e vi minhas plantinhas, meus quadros, minhas coisas, tive uma sensação de aconchego. O problema é que olho pela janela e não vejo o Mont Blanc.

A PROVA

Acordei cedo, tomei café e me preparei para sair. A minha mochila e minhas coisas do apoio estavam todas separadas. Tive tempo de gravar uma playlist no meu ipod e saí para pegar o ônibus. Fazia frio, mas nem tanto. Não chovia e isso era um bom sinal, apesar do céu estar carregado. Muito corredores se direcionavam aos ônibus. Depois de 40 minutos viajando o ônibus saiu do túnel do Mont Blanc e do outro lado veio a surpresa. Um lindo dia de sol!

Foi engraçado escutar o suspiro dentro do ônibus quando aquele céu azul apareceu. Foi uma pontinha de esperança porque sabíamos que a previsão não era nada boa. Aliás, a previsão do tempo era horrível e só piorava. Eu recebia SMS no meu celular dizendo que deveriámos esperar ainda temperaturas mais baixas, com muita chuva, neve e frio. Quatro camadas de abrigo passaram a ser obrigatórias. Com essas coisas não podemos brincar e se pediram 4, teríamos de levar 4.

A esperança durou pouco e ao esperar sentada num café em Courmayeur já começou a chover. O frio estava intenso. Eu tirei a minha luva da mochila e pendurei numa parte fácil e acessível. Eu sabia que ia precisar. Eu estava com a perna toda coberta, um base layer, camiseta e o meu TNF VERTO. Foi com essa roupa que larguei e foi com ela que percorri os 100km. Também não sei como aguentei pegar o frio que peguei com tão pouca roupa. O VERTO é fantástico, mas acredito que eu sou bastante resistente ao frio também. Com certeza prefiro o frio ao calor.

Alinhamos cada um nas respecitvas “baias”. Isso é legal porque quando você faz a inscrição você dá uma previsão de tempo para completar a prova. Eu preenchi que iria fazer em menos de 17 horas e isso me fez posicionar na primeira baia. Havia muitos corredores ali e eu não estava preocupada exatamente onde iria largar. Eu estava feliz, emocionada e não estava nervosa. Lembro exatamente quando a música começou a tocar e todos os corredores colocaram as mãos para o alto. Eu falava baixinho no meu interior. Pedia permissão para estar ali. Pedia para passar por aqueles lugares maravilhosos com saúde e levando dali nada mais que aprendizado e crescimento. Eu não queria levar nada de lá que não fosse isso. Meu olhos enchiam de lágrimas.

 

Na contagem regressiva de 10, os 1800 corredores largaram ao som de uma música emocionante e debaixo de frio e chuva. Eu vibrava com aquele momento, passando pelas ruas de Courmayeur onde tantas pessoas assistiam, vibravam e balançavam os sinos. Foi um momento mágico.

Corremos em torno de um quilômetro e já começamos a subir. Ali não dá para aquecer então todo mundo larga meio frio. Em pouco tempo chegamos na entrada do single track e começou a loucura. Era uma subida muito inclinada, cortando a montanha em zig-zag de um lado para o outro. A maioria dos corredores estavam com trekking pole. Era uma fila indiana gigantesca subindo em ritmo puxado. A minha panturrilha ardia e eu pensava internamente, “não é a toa que essa é a terra da panturrilha” – brincadeira que fazia ao ver as pernas das pessoas em Chamonix. Estava sofrido e eu aguentando frime e forte. Eu via algumas mulheres mas não pensava em colocação. Eu pensava apenas em fazer a minha prova e em focar em terminar.

Depois de 50 minutos subindo chegamos no primeiro ponto de abastecimento, onde eu parei rapidamente para pegar água. A maioria dos corredores seguiram direto mas eu achei melhor não arriscar. De ali em diante subimos um pouco e logo começamos a correr num local mais plano. O frio aumentava e começava a nevar. Eu enxergava com dificuldade porque os flocos de neve entravam diretamente nos meus olhos. Minha mão começava a congelar e eu achei melhor colocar a luva. Ela estava tão gelada e eu não conseguia colocar, então puxava com os dentes tentando me abrigar o mais rápido possível.

A descida para ARNUVA foi muito doida. Acima de 1800 metro tínhamos neve. Abaixo disso era chuva. Como Arnuva estava num ponto mais baixo a chuva fez com que a trilha virasse um lamaçal insano. Foi um tanto quanto engraçado ver todo mundo patinando e se esforçando para ficar em pé. Eu escorava com os trekking poles, fazendo esforço para não cair. Ao chegar lá embaixo os sinos balançavam e as pessoas gritavam nossos nomes. Eu escutava, “Allez Manuela” e isso era muito legal. Peguei mais água e comida e saí do abastecimento tomando meu HAMMER GEL. Eu sabia que precisaria de energia pois íamos começar a subir o GRAN COL FERRET.

Nesse momento minha cabeça começou a viajar. Lembrei daqueles vídeos que tanto vi do UTMB onde uma tomada de helicóptero mostrava aquela imensa fila de corredores subindo aquele pico coberto de neve. Eu lembro do arrepio e da emoção e ali estava eu, vivendo aquela cena. Foi um delírio. Eu olhava o meu gps e via a altimetria, sabendo que ainda faltava subir bastante. No começo pegamos muita lama e isso dificultou. Depois dos 1800 metros começou a cair bastante neve. Ao chegar a 2537 metros eu sabia que havia atingido o cume e que de ali em diante vinha uma descida muito longa e divertida.

Lembrei da Fernandinha Maciel que me falou dessa descida. Ela disse que era uma delícia e que eu ia adorar. Foi exatamente como ela descreveu e ali eu comecei a acelerar. Eu não sou muito rápida nas descidas, mas naquela eu fui. Passei 3 mulheres e alguns homens naquele trecho. Eu estava feliz demais. Eu nem conseguia colocar meu Ipod. Eu estava tão feliz que eu sinto que a música ia quase que “estragar” aquele momento. Ali era hora de ouvir a natureza, ouvir a montanha e ficar em sintonia com a prova e não sentia nem vontade de escutar mais nada. Era um momento de introspecção, de reflexão e foi maravilhoso. Foi como eu um passe de mágica cheguei a La Fouly.

Eu estava num pequeno grupo de 4 homens e segui com eles. Era um pequeno pelotão e eu corria no ritmo deles. Foi bom porque me fez seguir correndo o tempo todo com eles e por onde passava escutava incentivos por todos os lados. Eu me sentia muito bem naquele momento e aproveitava o fato. O começo da prova é sempre muito difícil para mim, mas ali eu me sentia muito melhor.

A chuva apertava e eu me aproximava de Champex Lac. Ali era o primeiro ponto de abastecimento com comida de verdade e eu sabia que deveria me alimentar bem. Foi muito bom ver a Guga e o Vinicius, que foram nos dar apoio. Eu não queria gastar muito tempo e nem tirei a mochila das costas. Eu levava em torno de 6:30 de prova e estava um pouco a frente da metade do percurso. Eu apenas pedi a minha lanterna de cabeça e comi um prato de macarrão com queijo ralado, já que o molho era de carne. Abasteci as caramanholas e saí super motivada. Acredito que naquele momento eu ocupava a sexta posição geral feminino e tinha a sensação de que o tempo havia passado muito rápido. Nem parecia que eu já havia corrido metade da prova!

Segui para subir Bovine, mais uma subida forte da prova. Eu dava passas mais curtos e isso me cansava menos, então comecei a buscar e ultrapassar vário corredores a minha frente. Quando chegava ao topo tive a oportunidade de olhar para baixo e aviste uma mulher na subida, já próxima de mim. Passei pelo abastecimento pegando água e saí rapidamente para não perder muito tempo. Nevava mais uma vez.

A descida eu consegui fazer bem e ainda estava claro. Não era uma descida rolada como a de La Fouly, mas foi bastante divertida e corri bem. Cheguei em Trient e ali peguei um prato de sopa com massa. Eu não comia muito durante o percurso porque estava sempre com os bastões na mão e porque o percurso era bastante técnico. Me senti como numa prova de mountain bike em trilhas, quando não conseguimos nos alimentar muito por conta do percurso, por isso tratava de comer nos abastecimentos. Enquanto eu comia a massa a corredora espanhola me passou. Ali fica aquele dilema: eu devo comer ou sair correndo? Eu não quis arriscar até porque eu repetia para mim mesma: antes de pensar em chegar em alguma colocação é importante pensar em CHEGAR. Sem comida eu não ia chegar a lugar algum.

Ela saiu bem na minha frente mas quando começamos a subir Catogne eu comecei a avistar. Sem desespero eu continuei no meu ritmo até que alcancei e ultrapassei. Estava começando a escurecer. A subida foi dura e começou a nevar muito. Ali eu me senti numa cena natalina. Tudo branquinho e os flocos gigantes. Fazia MUITO frio e minha mão estava gelada, mesmo com luva. Na descida passei um PC com uma fogueira. Incrível a disposição dos Staffs! Estão todos de parabéns.

A descida estava muito técnica e foi ali que a espanhola me passou. Eu não consegui acompanhar e estava fazendo meu melhor. Quando cheguei no apoio de Vallorcine ela já havia partido. Ali encontrei mais uma vez a Guga e o Vinicius, que me ofereceram sopa. A sopa estava muito quente e eu não conseguia comer então comi 2 waffles. Tirei peso da minha mochila pois eu sabia que algumas coisas eu estava levando em excesso e não ia usar, como a segunda caramanhola de água e as barras de proteina. Eles me sugeriram que eu trocasse de roupa mas chovia muito e não ia fazer diferença para mim. Saí assim mesmo pois eu sabia que já faltava “pouco”.

A última subida até Tête aux Vents havia sido cancelada e iríamos por outro lugar. Pegamos subida, mas não muito inclinada então era possível correr bastante. Impressionante o nível dos corredores! Muitas vezes numa prova de 100km o que mais vemos no final são as pessoas se arrastando e ali não. Todo mundo corria como se não tivesse percorrido tudo aquilo. A minha lanterna estava fraca e eu não queria tirar a mochila e procurar pilhas reservas no meio de toda aquela chuva, então seguia enxergando com dificuldade. Já mais perto do final um corredor me ultrapassou com uma boa luz, então colei nele. Ele estava em ritmo forte e eu consegui ir junto. Corremos uns 10 minutos juntos até que um amigo dele apareceu. Eles aceleraram ainda mais e eu não consegui manter. Eu sabia que já estava perto do fim mas não sabia o quanto faltava. Via luzes de longe e torcia para estar perto.

Corri num lugar descampado e com grama e quando cheguei no ponto de luz vi que já estava dentro de Chamonix. Vi a quadra de tênis e identifiquei o lugar onde fazia minhas corridas no plano. Eu estava muito perto! Nesse momento fiquei eufórica! Eu corria em ritmo forte e as pessoas aplaudiam enquanto eu passava. Eu estava cansada, mas eu estava bem! Não tive nenhuma queda, nenhuma lesão, nenhuma dor! Eu estava completando um percurso duríssimo, em condições super adversas e com um sorriso enorme no meu rosto. Eu estava vivendo um sonho e eu não queria trocar aquele momento por nada. Eu aproveitava cada segundo enquanto passava pelas ruas de Chamonix e escutava os aplausos. Já na reta do portico a Guga me entregou a bandeira do Brasil, com a qual cruzei a meta muito feliz.

Fui a 12a mulher a chegar e 152 entre os 1800 corredores. Estou muito feliz com o resultado e só tenho a agradecer a força de todos. Isso só me faz querer treinar mais para melhorar no ano que vem. Foi uma viagem inesquecível e uma prova maravilhosa. Difícil descrever o que sinto agora, mas acho que sinto saudades de todos os momentos que passei em Chamonix. Foi realmente incrível!

14 comentários para “Courmayeur Champex Chamonix

  1. Parabens Manu, aventura emocionante, vc chegou inteirAÇA, tenho a certeza de que ano que vem, mais experiente, vc vai apertar o passo e chegara entre as 3, vc foi fantastica!

  2. Que máximo, Manuela! Ví os vídeos, e no da sua chegada, pude perceber como você estava inteira. Fiquei emocionada com o seu relato da prova… Parabéns, mesmo!

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