Blog da Manu

The North Face Transgrancanaria - a corrida

A The North Face Transgrancanaria estava na minha lista de desejos há algum tempo, que em 2015 se concretizou.  O atleta precisa trabalhar muito para encarar uma prova como essa, e foi exatamente isso que fiz. A minha última grande competição em 2014 foi no mês de outubro e depois disso tirei um bom tempo de férias. Voltei a treinar sério em 2015 e me preparei para encarar essa prova tão desejada. Estou muito feliz por haver conseguido completar muito bem esse grande desafio.

A prova largou às 23:00 de Agaete, que fica localizada no lado norte da ilha Gran Canaria. O clima da largada era muito diferente do clima da chegada e eu sabia que teria que administrar uma mudança climática de mais ou menos 15 graus. Nós já havíamos sido alertados sobre a CALIMA, corrente quente de vento e areia que vem da África. Se por um lado a calima foi negativa, por outro ela foi extremamente benéfica. A linda paisagem da ilha ficou submersa numa nuvem de poeira e o vento uivou com muita força em boa parte do percurso. Por outro lado o sol escaldante não conseguiu romper essa camada e seus raios ficaram muito mais tímidos do que realmente ficariam num dia limpo.

A prova largou numa subida já com bastante desnível, mas o frio me fez sentir bem e consegui colocar um bom ritmo. Muitos corredores caminhavam e eu me forçava a correr, me situando num bom pelotão da prova. Correr de noite impede que a gente veja como está em relação ao resto da prova e confesso que isso é uma coisa que eu gosto. Quando cheguei no primeiro abastecimento estava com duas outras mulheres, que passaram direto. Eu não podia fazer isso pois não tinha apoio pessoal, então sempre procurava me abastecer. Escutei uma pessoa do PC me falar que eu era a sétima mulher a passar. Eu sabia que o nível das corredoras era muito alto e estar naquela colocação era muito bom, mas ao mesmo tempo aquilo não significava absolutamente nada pois eu havia corrido apenas 10 dos 128km.

Segui fazendo minha prova, focada apenas em administrar o meu corpo. Forçava sempre que podia e me atentava a comer e me hidratar. Pode parecer fácil, mas é muito difícil comer em provas como essas. O apetite fica muito reduzido e se torna muito mais uma obrigação do que um desejo. Fome eu não senti, mas me obriguei a ingerir tudo que podia, nos momentos certos e necessários. Algumas vezes sofri com dores no estômago, que eu acredito ser consequência do impacto e da respiração forte, mas mesmo assim eu me obrigava a ingerir alguma coisa.

A competição entre as mulheres foi muito intensa ao longo de toda a prova. Se em algum momento eu resolvesse parar para fazer um xixi, por exemplo, seria ultrapassada. Em boa parte da prova segui com duas portuguesas: Ester e Lucinda. Fizemos um pelotão e não deixamos a bola baixar. Se em algum momento alguma de nós ficasse para trás, teria que se virar para alcançar novamente pois não estávamos esperando umas as outras. Mas ao mesmo tempo nos ajudamos muito, sempre com o foco em ir para frente o mais rápido possível.

Preciso destacar um momento especial, um tanto quanto engraçado, pelo qual nós passamos. Na subida de Tejeda nos deparamos com três garrafinhas de suco de pêssego. Elas estavam ali na trilha, encostadas e enfileiradas. Nos entreolhamos e olhamos as garrafinhas. Pensamos juntas, “Somos três, são três garrafinhas.” Cada uma estendeu a mão e pegou a sua. Abrimos, brindamos, tomamos tudo num gole só e sorrimos com cara de satisfação. Que delícia estava aquele suco e que coisa mais improvável foi aquela cena.

Seguimos na subida e a Lucinda começou a ficar para trás. Eu e Ester nos mantínhamos focadas. Assim seguimos por um bom tempo juntas, até que na subida para o Roque Núblo eu comecei a abrir. Ali ventava bastante e eu sabia que já estava quase no topo, pois avistava cada vez mais perto as enormes pedras até aonde eu tinha que ir. Eu estava me sentindo bem e seguia muito focada. Fiz o bate volta e na descida encontrei a Ester, que se juntou a mim mais uma vez no abastecimento seguinte, Campamiento El Garañón. Ali estava a minha bolsa de “special needs”, que eu abri para pegar minha reposição de comida e isotônico. Aproveitei para abastecer minha mochila de água e engolir algumas colheradas de macarrão.

Saímos as duas juntas, mais uma vez, e minha visão estava muito turva. Eu havia dispensado meu óculos e o vento ressecava a minha retina cada vez mais. Eu já havia passado a noite toda com esse problema e imaginava que ao longo do dia iria melhorar, mas como o vento não cessou, eu também não tive melhora. Eu tinha um colírio no bolso, que a Ester me ajudou a pingar. Encaramos uma subida curta, porém íngreme, e eu comecei a abrir novamente. Atingi o ponto mais alto da prova e comecei a descida.

Que descida dura, mas não por ser muito íngreme nem técnica. Era por um calçamento de pedra, em zig-zag, mas que naquela altura da prova já se tornava cansativa. Eu imagino que o visual daquele ponto deveria ser deslumbrante, mas infelizmente estava envolto na nuvem de poeira. Segui sozinha, porém sempre focada.

Apesar de não ter ninguém ao meu lado, fico feliz ao constatar que não me acomodei. Apertei o ritmo sempre ao que podia e não deixei minha cabeça vagar. Minha mente estava fixa no presente e no que eu estava fazendo. Eu não tinha idéia da colocação em que eu me encontrava, mas sabia que fazia uma excelente prova.

Eu me perguntava quando chegaria ao downhill mais técnico da prova, e quanto cheguei nele, não tive dúvida. Uma descida vertical e eu enxergava o PC embaixo de mim, a muitos metros verticais. Suspirei,”WOW,” ao olhar para baixo e segui descendo. Ali eu já via muitos corredores de outras distâncias e pedia “permiso” para passar. Eu usava os bastões para me equilibrar e me empenhava em não me desconcentrar para não cair e nem me machucar. Assim cheguei ao PC do quilometro 110 da prova, com muita energia, e bastante aplaudida.

Ao entrar fui correndo abastecer minha garrafinha e vi meu amigo Chico Santos, sentado. Gritei o nome dele e vi que ele se levantava e colocava a mochila nas costas, junto a um outro corredor. Chamei para que eles viessem comigo, mas ele me disse que não se sentia bem e que iria seguir devagar. Eu saí correndo num bom ritmo, sabendo que apenas me restavam 18km.

Deste ponto em diante peguei mais uma pequena subida e cheguei a um estradão de terra que descia. Ele estava lotado de corredores de várias distâncias diferentes, que me incentivavam sempre que eu passava, com um ritmo excelente. Eu escutava, “animo, campeona”, e isso me dava ainda mais energia. Assim as descidas acabaram e cheguei num estradão plano. Essa parte foi mentalmente muito difícil, pois eu já estava correndo há muitas horas e o fim da estrada não se via. Às vezes eu fazia uma curva e quando acabava eu via que tinha uma enorme reta a percorrer. Apesar da tentação de andar não perdi o foco e segui correndo até chegar ao último abastecimento, a mais ou menos 8km da linha de chegada.

Abri minha garrafinha para abastecer com água e ao olhar para o lado, me deparei com a quarta corredora. Eu não acreditava. Ela não me viu então eu fechei a garrafinha e saí de fininho, rezando para que ela me visse. Reparei que logo ao sair a staff da prova notou que estávamos as duas ali e eu apenas torcia para que ela não falasse nada.

Segui correndo no mesmo ritmo que vinha anteriormente pois eu não aguentava ir mais rápido. Assim atingi a parte do canal, que já indicava que eu estava dentro da cidade. Eu corria por dentro do canal e o chão era repleto de pedras, numa reta interminável. Eu concentrava as minhas passadas para pisar nas pedras grandes e isso me mantinha ocupada. Não olhei para trás em nenhum momento, mas quando eu estava na metade do trecho a corredora Suiça me passou como um foguete, provavelmente sabendo que eu estava a sua frente. Não tive condição nenhuma de reagir e segui correndo no meu ritmo.

Ao chegar na praia eu sabia que já estava muito perto. Percorri o trecho de areia e cheguei ao Faro de Maspalomas. Ali as pessoas estavam sentadas assistindo, aplaudindo e encorajando todos que passavam. Quando virei para a direita já consegui escutar o agito da chegada. Vi o pórtico, as pessoas e escutei a voz do Depa, que fazia a locução do evento. Fiz o retorno e entrei na passarela da reta de chegada.

Cruzei a linha de chegada exausta mas com um sorriso gigante no rosto. Eu acabava de cumprir um sonho, com a certeza de que havia feito tudo que podia e que havia lutado com muita garra. Foi aí que perguntei em que colocação eu havia fechado a prova. Prontamente o Bryon Powell estendeu a mão e me mostrou um 5, que justificou cada gota de suor que deixei naquele percurso.

Agradeço do fundo do coração a torcida gigante que me acompanhou ao longo dessa jornada. Estou muito feliz!

6 comentários para “The North Face Transgrancanaria - a corrida

  1. Que saudades eu estava dos seus posts por aqui! Cada relato uma emoção nova. Como torcemos por você Manu! Ficamos imensamente felizes com o resultado, você é um orgulho pra todos nós! E uma mega inspiração. Parabéns parabéns parabéeens! Que venham mais provas como essa, mais relatos inspiradores e muito mais sucesso, que é o que você merece! :) 2015 apenas começou né? Um beijãoooo!
    Ps: Fico aqui pensando como você corre essas provas duríssimas e sempre está linda em todas as fotos! :) para poucas!
    Beijão Manu!!!!

    • Ju, você é uma pessoa muito especial! Nem sei como te agradecer todo o carinho, sempre lendo e comentando meus posts. Obrigada, obrigada, obrigada! Que 2015 seja um ano de muito sucesso para você e espero voltar em SP para a gente ir de novo na Liberdade :)
      Beijo grande :)

  2. Oi Manu. Cheguei no seu blog por acaso. Estava lendo o relato de uma canadense que nao completou a prova, fui no site oficial, olhei os resultados e la estava voce. Parabens pela excelente prova. Impressionante!

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